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“Cultura” da Voz Ativa

Irmão, o demônio fode tudo ao seu redor/ pelo rádio, jornal, revista e outdoor/ Te oferece dinheiro, conversa com calma/ contamina seu caráter, rouba a sua alma (…) Capítulo 4, Versículo 3 – Racionais MC’s

Depois de muita pressão, o programa “Manos e Minas” da TV Cultura continua na grade televisiva brasileira. Tudo isto porque com a nova presidência da TV estatal paulista – João Sayad – há a “proposta” de “inovação” da TV Cultura, tal “inovação” que envolve corte de programas (como o “Metrópolis” que já fechou as portas) e um enxugamento no quadro de funcionários (segundo Maria Rita Kehl, corte de 3/4 dos funcionários). Mas o porquê desta economia de verba? Concordo com Kehl quando diz que a proposta da TV Cultura é fomentar um veículo de comunicação diferenciado das demais televisões, investindo na produção e reprodução de programas culturais nacionais e internacionais; para isto, a questão do lucro econômico por parte da TV seria secundária, estaria atrás somente da valorização da produção “cultural”.

Mas contrário do que esta colunista (não sei se é com frequência) do Estadão e que aparece sempre no programa Café Filosófico da própria (sarcástico, não?) TV Cultura. O que há é um conflito político – não no sentido de ser estritamente feito por políticos – no âmbito meramente do investimento do estado na “alta cultura” ou na “cultura popular”, há um jogo de interesses na arena de disputa de poder, tanto politicamente quanto economicamente. E tal retrato no corte de investimento em programas de “cultura popular” é apenas um retrato da disputa que está além da precária oposição “erudito” x “povo”.

O estado de São Paulo está em sob o governo do PSDB há quase uma década (e possivelmente fique por mais quatro anos, não que essa seja minha posição política – é claro) e por mais que seja um lugar comum das análises políticas, no governo pessedebista há tendência de maior abertura ao capital privado aos bens estatais, vide o preço módico dos pedágios do Estado de São Paulo (para eu ir de São Carlos até a minha cidade, na qual possui uma distância de aproximadamente 240 km. Os três pedágios que possui na rodovia, o custo é de aproximadamente R$ 25,00, isto porque moro no interior, nas proximidades da Grande São Paulo este custo é mais elevado). Estou escrevendo sobre os pedágios, justamente por ser um dos “motivos” para o corte de funcionários (ou funcionário)

O exemplo do pedágio, ocorreu em um programa Roda Viva apresentada por um dos “velhos guardiões” do jornalismo brasileiro, Heródoto Barbeiro. Barbeiro de maneira provocativa – como toda boa entrevista deve ser – perguntou para José Serra, candidato da presidência pelo PSBD:

Como toda pergunta mal respondida, cheio de nhe-nhe-nhéns, Serra respondeu com um “isto é o trololó petista” reiterando o conflito (sic) entre PT e PSDB (que mais parece briga entre irmãos, do que debate político). Após essa entrevista, hoje o Sr. Barbeiro foi “transferido” e no seu lugar está a Srta Marília Gabriela, ex-atriz global (acho que a justificativa é para dar um “charme” a mais no programa) apresentando o Roda Viva. Esta é uma das mudanças na TV Cultura.

Os cortes vão justamente nos “aliados”* mais distantes do presidente da TV Cultura (ou seja, do governo paulista). Pode sim ser um desejo do novo presidente, criar uma TV “Erudita”, mas isto não justifica o corte do Heródoto.

A TV é uma das maiores fontes de informação que temos atualmente, as pessoas são “educadas” mais pela TV, muitas vezes, do que na escola. Ou seja, a TV é uma maneira de manipulação ou/e controle de informação muito importante para manutenção ou ruptura do status quo, sendo assim um dos motivos das mudanças na TV Cultura, que para mim era um dos espaços mais “abertos” (ou menos “fechados”) na televisão brasileira. Acho que é ingenuidade minha.

Contudo, após muitas reinvidicações (quantitativamente e qualitativamente) para “salvar” o Manos e Minas, o programa orgulhosamente se mantém de pé. Orgulho de ser o único programa voltado para a “cultura de rua” (e filosofia também) na TV brasileira. Por ser também o único programa que mostra o que os guerreiros e as guerreiras produzem culturalmente. Onde há também este espaço? No Gugu? No Faustão? No Superpop?

Mas o próprio Manos e Minas durante algum tempo está em processo de mudança. O apresentador anterior era o Rappin Hood, agora o Max B.O.. O Rappin Hood não saiu “na boa”, o motivo da sua saída foi por

uma nao afinidade existente entre as partes para o bom andamento da nossa cultura com os telespectadores. Rapin hood declarou que nos ultimos meses a imcompatibilidade de genios profissionais desgastou sua luta diaria em colocar no ar um programa verdadeiro. Por Fábio Rogério, no blog do Ferréz – 30/03/2009 (grifos meus).

Não somente o Rappin Hood saiu do Manos e Minas. O próprio Ferréz que apresentava um quadro chamado Interferência dentro do programa, sai um ano depois de Rappin Hood. Ferréz num tom de pouca exposição diz:

Com certeza vão querer saber o motivo, ntão lá vai, estamos pedindo um aumento no tamanho do programa a algum tempo, e ficamos em média 5 minutos no ar, o motivo é só esse, o tempo que achamos muito pouco para a qualidade dos entrevistados que chegamos a gravar. Ferréz, no próprio blog - 13/03/2010.

Ambos ícones da cultura hip-hop brasileira, um no rap e o outro na literatura, sendo conhecidos por serem críticos através de suas produções:

A escravidão não acabou é apenas um sonho/tem alguns brancos controlando o dinheiro do mundo/Tem alguns negros guerreando contra todos e tudo/e alguns manos nas ruas querendo roubar um banco/Não seja um tolo, amante do dinheiro/Batalhe dia a dia pois você é um guerreiro. Rappin Hood em Us Guerreiro.

São centenas de viúvas, chorando lágrima de sangue, dentro dos barracos, enquanto seus filhos saem às ruas para serem presos e mortos, o jogo é claro, quem ganha com a vida criminal é o Estado, que superfatura os custos da cadeia, que paga salário de juiz, acerto para os delegados, e um cachê básico para os caixões continuarem descendo nas covas periféricas. Ferréz em Rio de Sangue (Cronista de um tempo ruim).

Essas mudanças não são hoje debatidas, será que a “cúpula” já estava prevendo este término e a saída do Rappin Hood e do Ferréz eram apenas um aviso prévio? No lugar do Rappin Hood foi colocado Thaíde e agora Max B.O., ambos são importantes – como os anteriores – ícones do hip-hop nacional, entretanto a postura dos dois são bem menos agressivas, vide isto nas suas músicas:

Que saudade do meu tempo de criança/ quando eu era ainda pura esperança/ Eu via minha mãe voltando pra dentro do noso barraco/ com uma roupa de santo debaixo do braço. Thaíde & DJ Hum – na clássica e belíssima – Sr. Tempo Bom.

A camisa é minha/ eu tô pronto pra jogar/ A vida é um jogo/ tem que saber o que joga / Se você não estiver pronto pra jogar/ não joga. Max B.O. em Se Você Não Estiver Pronto Pra Jogar.

Ambos possuem históricos bem mais soft em relação aos outros dois (ou mesmo comparando com grupos como: 509-e, Face da Morte, Facção Central, etc). Thaíde já teve programa na MTV (Yo!) e agora está na Band junto com o pessoal d’A Liga que é um programa humorístico; e o Max B.O. já foi apresentador da RedeTV no programa Brothers. Não estou dizendo que eles são “vendidos” ou algo do tipo, somente digo que em relação a posição de contestação política contra o sistema hegemônico, os dois são menos ilustrativos, sendo eles mais importantes para o processo de “profissionalização” do hip-hop.

Com esta luta pelo não-cancelamento do programa Manos e Minas, o blog Per Raps (com Carol Patrocínio) argumentou:

O descontentamento geral criado pelo fim de um programa que poderia dar espaço ao que cada um de nós pensa, gerou barulho a ponto das coisas mudarem. A partir daí, foi provado por A mais B que o mundo pode dar ouvidos a nós, desde que se saiba como gritar.

Mas o que queremos, dar um pequeno passo ou correr transformando cada coisa que não nos parece certa? A cultura hip hop sempre foi contestadora, lutou por aquilo que acreditava ser certo e provou que organização é o primeiro passo pro sucesso de uma empreitada. Mas como disseram, foi o primeiro round.

É claro que o programa Manos e Minas continua sendo importantíssimo como um espaço na mídia para a “cultura de rua”. Mas até que ponto o programa está sendo contestador? Será que o programa não está somente apresentando e mostrando como é a cultura da periferia, mas sem nenhum viés crítico? Digo isto, por justamente o hip-hop ser conhecido pelo caráter contestatório, principalmente no rap. Será que a “cúpula” da TV Cultura está atuando para uma “atenuação” no teor do programa? Ou no limite uma “docilização”**?

Na verdade o que interessa são os pontos no Ibope/ Cascalho o caralho! Faz o povo de otário!/Não me engano, eu não sou bobo/Sou o rapper da Rede Povo/Não queremos a sua pena de sua gente não precisa. Face da Morte em Televisão.

*Empregados e críticos do próprio gorverno paulista.

**Não entenda no sentido pejorativo do termo.

 

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Literatura Marginal

Literatura da periferia, alguém já ouviu falar? É comumente escutar “favelado não tem cultura, blá blá blá”. Se fosse o palestrante-escritor de ontem ele falaria “Se fosse o mano da favela que não para de assistir a novela, aí sim, este não tem cultura mesmo”.

Este palestrante é o Ferréz – romancista, contista e poeta – do Capão Redondo, bairro periférico da cidade de São Paulo. Se tivesse levado meu vô (di-chan[i]) para a palestra ele diria: “O que esse gai-jin[ii] tá fazendo no palco?”

Para os literatos mais tradicionais achariam estranho um escritor de calça larga, corrente brilhante no pescoço e uma toca na cabeça. Mas foi este cara aí que me deu uma outra visão da literatura.

Em determinado momento da palestra, ele disse que hoje em dia o conteúdo dos livros nada tem haver com as pessoas realmente vivem – “É muito comum na favela a molecada falar sobre o Harry Potter com sua varinha mágica da felicidade, enquanto comentários sobre os livros na qual eles realmente vivem, não existem” – Mas de fato é de grande verdade esta situação, os livros mais vendidos tratam de mundo mágico, viagem na Europa, vida amorosa em Manhattan. Não que eu seja contra estes livros, melhor dizendo, não sou contra a livros bons. Sou contra os livros que ao invés de expandir nossa visão, nossa mente, ocorre o inverso, os encolhe.

O que também achei interessante é a capacidade do escritor de retratar fielmente a vida na periferia, porque atualmente, não há um retrato verdadeiro por parte da mídia, o que existe é uma distorção e um sensacionalismo do que se passa na favela. Não há a compreensão por parte da mídia de  “por que existem bandidos?”, um exemplo deste não entendimento está nos programas de começo de noite (e fim de tempo).

Tive a oportunidade de comprar um livro seu, Cronista de um tempo ruim[iii] da Selo Povo. É interessante o objetivo, por parte do Ferréz, destes livros. Os livros são vendidos em preços populares, 5 reais, o público-alvo do escritor, prioritariamente, é a periferia. O porquê deste objetivo é para a periferia ter um contato maior com a literatura, mas não qualquer literatura, aquela que retrata sua própria vida cotidiana.

Fiquei sabendo que o Ferréz fez de tudo para ter um preço popular como este. Procurou de todos os modos de diminuição do preço de produção, tipo de capa, de papel, quantidade de páginas, a arte da capa… Tudo isto, pois se fosse a outras editoras o preço iria para o dobro ou triplo do preço. Ferréz não tem quase nenhum retorno financeiro com os livros, tudo o que ele quer mesmo é traficar inteligência[iv].

Depois de tudo isto, fui em um palquinho[v] lá na UFSCar, e coincidentemente eram 2 grupos de rap da cidade se apresentaram: Ébanu’s e Sub Loco. Naquele momento o palco era de pessoas que são oprimidas por muitos pais de playboys que estavam lá. Agora era a vez de o boyzinho escutar quieto.

 

 


[i] Avô em japonês.

[ii] Estrangeiro em japonês, no sentido pejorativo.

[iii] Contém textos publicados na Revista Caros Amigos, Jornal Folha de S. Paulo, Le Mond Diplomatic Brasil, Revista Trip e Relatório da ONU.

[iv] “O meu sonho é um dia, quando a polícia parar o mano na rua e querer revistar. O mano vai dizer: Pô já vendi tudo o que eu tinha. Ou se tivesse alguns livros, ele diria: Pode levar, não tem problema não, to traficando inteligência” Ferréz.

[v] Área de convivência das universidades, onde há apresentação musicais, manifestações universitárias.

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Dia da Consciência Negra

Sou Negrão – Rappin Hood

Subi o morro pra cantar (o rap ahh, o rap ahh)
Que é pra malando se ligar (o rap ahh, o rap ahh)
Que malandragem é trabalhar (o rap ahh, o rap ahh)
E a pivetada estudar

Não tenho toda malandragem de Bezerra da Silva
Nem o canto refinado de Paulinho da Viola
Sou só mais um neguinho pelas ruas da vida
Que quer se divertir, fazer um som e jogar bola
Rappin Hood sou, hã, sujeito homem
Se eu tô com o microfone é tudo no meu nome
Sou Possemente Zulu, se liga no som
Sou negrão, certo sangue bom
20 de novembro temos que repensar
A liberdade do negro, tanto teve de lutar
O negro não é marginal, não é perigo
Negro ser humano, só quer ter amigo
Na antiga era o funk, agora é o rap
Vem puxando o movimento com o negro de talento
O negro é bonito quando está sorrindo
Como versou Jorge Ben, o negro é lindo

E é por causa disso tudo que estamos aqui
Se falam mal do negro, eu não tô nem aí
Pois já briguei muito, já falei demais
Mas o que o negro quer agora realmente é a paz
Andar na rua no maior sossego
Constituir família, ter o seu emprego
Como Grande Othelo, João do Pulo, BB King e o Blues
Raul de Souza, Milles Davis, improviso no jazz
Pixinguinha e Cartola, velha guarda do samba
Luiz Melodia e Milton Nascimento, dois bambas
Vieram os metralhas como rap abolição
Falando do negro e de sua opinião
Pois, muitos negros já percorreram a trilha do sucesso
Jackson do Pandeiro, Candeia e Aniceto
Kizomba, Festa da Raça com Martinho e a Vila
No ano do centenário, grande maravilha
E a rainha do samba, Clementina de Jesus
Que já partiu pra melhor mas Quelé divina luz
E no futebol, temos rei Pelé
Garrincha de pernas tortas num perfeito balé

Sou negrão, hei
Sou negrão, hou

Luiz Gonzaga era preto, era o rei do baião
Jair Rodrigues disparou no festival da canção
Dener com a bola, mais que um dom
Preto quer trabalhar, não quer meter um oitão
Futuro, presente, passado, realmente jogados
Fizemos a história, perdemos a memória
Temos nosso valor, temos nosso valor
Bob Marley, paz e amor
Diamante negro do gol de bicicleta
Leônidas da Silva, craque da época
O Malcom X daqui, Zumbi temos que exaltar
Em Palmares teve muito que lutar
Martin Luther King com a sua teoria
Estados Unidos o movimento explodia
Apartheid, um por todos e todos por um
Nelson Mandela sem problema nenhum

Sou Negrão, hei
Sou Negrão, hou

Ivo Meirelles, Jamelão e aí Mangueira
Luta marcial, jogar capoeira
Negra mulher, preta Dandara
Leci Brandão, Jovelina, Ivone Lara
Cabelo rasta, dança afoxé
Anastácia e Benedita, muito axé
Djavan e o seu som genial
O rei do balanço, mestre James Brown
Também falando de maninhos que não aceitam revide
Aqui vai o meu alô pra Dj Hum e Thaíde
E a reunião da grande massa black
Acontece aqui, nos versos do samba-rap
Na intenção de ver um dia o negro sorrindo
Gilberto Gil, Tim maia, os símbolos
Não esquecendo de falar de Sandra de Sá
Com os seus olhos coloridos fez a massa balançar

Sou negrão, hei
Sou negrão, hou

DMN decretou o que todos têm medo
É 4P, poder para o povo preto
Não o poder do dinheiro, não a corrupção
Sim o poder do som, Revolusom
Como um solo de Hendrix faz você viajar
Coisa de preto mano, pode chegar
Brother vem dançar porque a dança começou
Vindo do Fundo de Quintal
Mente Zulu chegou e esse é o recado que acabamos de mandar
Pra toda raça negra escutar e agitar
Portanto honre sua raça, honre sua cor
Não tenha medo de falar, fale com muito amor

Sou negrão, hei
Sou negrão, hou

 Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=pzep7d28v5Y

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