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A verdade está com o “nativo”

Bom… é muito comum, pelo menos dentro das Ciências Sociais, que os estudos sobre “identidades” que sofrem preconceito são estudados pelos mesmos que sofrem o preconceito. Negro estuda negro, homossexuais estudam homossexuais e mulheres estudam mulheres. Digo isto não por ser uma regra geral, mas porque há uma legitimidade enquanto há isso. É muito daquela noção antropológica de que a “verdade” está com o “nativo”. Que pessoa melhor para falar do negro do que ele mesmo? Que pessoa melhor para falar de gênero feminino, se não a própria mulher? Há muito disso na universidade, ou estou mentindo? Implicitamente não é isso? O discurso geral é que não tem nada a ver o estudo (“objeto”) com o pesquisador, mas acontece isso mesmo?

Por isso que é muito comum dos pesquisadores que estudam os “marginais”: prostitutas, moradores de rua ou o agentes envolvidos no crime na periferia, possuam legitimidade. Afinal, você já viu alguma prostituta, morador de rua ou um “criminoso” na universidade? É mais simples obter legitimidade, afinal você não concorre com o “interlocutor”, é só você e o grupinho de universitários da classe média.

Mas por exemplo, eu que estudo o rap, conheço “interlocutores” na academia que fazem parte ou possuem “enraizamento” no movimento hip-hop ou escuta rap desde cedo. O que eu nipo-descedente (“japonês”) do interior paulista tem pra se falar de rap? É claro que não tenho a pretensão de ser um expert em rap, ou pretensão de capacidade de explicar tudo sobre o rap, mas eu o estudo e possuo uma pequena analise em que pretendo dialogar tanto com a academia, quanto com o movimento hip-hop.

Quantas vezes já escutei: você não conhece esse cara? Você conhece pouco de rap ein? Quantas vezes já vi um estranhamento no olhar, após dizer a minha linha de pesquisa? Quantas vezes já escutei bobagens de pessoas que se autodenominam como “enraizadas” no rap? Quantas vezes já vi pessoas falando do rap, mas na verdade estavam falando de uma posição pessoal, um puro “achismo”? Mas ninguém se preocupa com isso. Quem tem a verdade é o “interlocutor”, é o “nativo”. Não ligo das descofianças analíticas que as pessoas possuem em relação a mim. Mas como empobrece analiticamente este “apostar todas as fichas” na opinião e na “verdade” do nativo. Se for assim, não precisamos mais analisar, conceituar, refletir e criticar mais nada. É só engolir a guela abaixo o que o outro fala. Para que pensar assim, se o pensamento já está pré-construído? Para que você serve então?

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Budismo: apego ou desapego aos desejos?

Ultimamente tenho visto na mídia, em aulas de professores, em textos da faculdade que o budismo tem como princípio um desapego aos desejos. O que poderia dizer é que este desapego “total” aos desejos é defendida em algumas linhagens do budismo, afinal há muitas delas.

Mas de acordo com os ensinos de Sakyamuni (ou Siddharta Gautama), no Sutra de Lótus, os desejos são sim a fonte para o sofrimento humano. Entretanto, além de ser apenas uma fonte de sofrimento humano é também a fonte de felicidade humana, ou seja, os desejos são tanto felicidade quanto sofrimento. Sakyamuni diz: “desejos mundandos é iluminação”. O Budismo ensina que nós seres humanos podemos “controlar” todos os fenômenos do universo, melhor dizendo, todos os fenômenos da nossa vida. Em qualquer fenômeno que ocorre em nossa vida, podemos extrair qualquer coisa (sofrimento, alegria, tranquilidade, angústia, entre outro), isto porque depende da nossa perpectiva em que vivemos, no budismo chama-se estado de vida.

Para melhor compreeder a questão do apego ou desapego aos desejos que o budismo ensina, coloco um trecho do livro Nova Revolução Humana, na qual Shin-iti Yamamoto* apresenta uma palestra na Universidade da California, nos Estados Unidos:

“Ao longo de sua palestra, Shin-iti buscou esclarecer a origem fundamental dos problemas da civilização moderna na perspectiva da filosofia de vida embasada no Budismo. Ele continuou explicando a visão budista de que a vida é um acúmulo de sofrimentos, incluindo aqueles decorrentes do nascimento , envelhecimento, doença e morte e levantou a seguinte questão:

- Por que os seres humanos sofrem?

Em resposta, explicou que o Budismo ensina que todos os fenômenos são inconstantes. Entretanto, os seres humanos, ao enxergarem erroneamente todos os fenômenos como permanentes e duradouros, crescem ligados ao seus desejos e tornam-se prisioneiro deles.

O desenvolvimento da civilização moderna tem sido estimulado pelo incentivo ao apego e pela interminável busca de coisas intrinsicamente transitórias. Consequentemente, enquanto o homem tornou a vida mais confortável e conveniente, criou também a destruição do meio ambiente e o perigo da guerra nuclear, levando-o à beira da propria aniquilação.

Shin-iti explicou:

- Algumas escolas budistas ensinam que a única forma de libertar uma pessoa do sofrimento é fazer com que ela se livre de todos os desejos. Mas será que isto é realmente possível? É natural que os seres humanos estejam ligados à vida, sintam amor e afeto e busquem satisfazer suas necessidades. O ensinamento essencial do Budismo, na verdade, não afirma que devemos eliminar todos os nossos desejos e nos libertar de nossos apegos.

O presidente Yamamoto continuou:

- O nosso “eu menor” foca a atenção em fenômenos transitórios, nos tornando escravos de nossos desejos e causando sofrimento. O Budismo ensina que nas profundezas da vida humana e de todos os fenômenos estão vinculados o sofrimento e o apego – reside uma lei eterna e imutável. Esta lei nos instiga a acordar para a verdade universal e a torná-la o alicerce de nossa existência. Em outras palavras, nosso “eu maior” consiste em viver com base na força fundamental e na lei do universo que dá origem as funçõs múltiplas da vida. O historiador Arnold Toynbee denominou tal fato de “realidade espiritual irrevogável”.

Uma vez que Shin-iti estava tentando explicar a filosofia budista da verdade última da vida, não havia como negar que estava apresentando uma palestra bastante difícil. No entanto, a plateia ouvia atentamente enquanto ele falava sobre esses princípios profundos relacionados à existência humana.

Em seguida, explicou que viver com base no “eu maior” não significa abandonar o “eu menor”, mas, sim, ganhar controle sobre ele e usá-lo de forma que contribua positivamente para a felicidade das pessoas.

-  Se compararmos o “eu menor” a um trem que se move rapidamente, o “eu maior” representa o trilho pelo qual o trem viaja. Se o trem do “eu menor” descarrilar, ficará fora de controle e tombará. Mas, se o trem do “eu menor” percorrer ao longo dos trilhos do “eu maior”, chegará com segurança ao seu destino de felicidade indestrutível.

Shin-iti discorreu então mais profundamente sobre o “eu maior” entrando na questão fundamental sobre a vida e a morte.

- O Budismo expõe o princípio da unicidade da vida e da morte. Ambas, na verdade, são manifestações eternas e imutáveis da própria vida, sem uma estar subordinada a outra. Por exemplo, passamos por grandes mudanças em nosso corpo e mente desde o nascimento. Ao logo do tempo, no entanto, há um “eu” interior que permanece inalterado. O Budismo ensina que esse “eu” é o “eu maior” que personifica uma vida que é tão vasta quanto o universo. E este “eu maior” trabalha eterna e imutavelmente, ora na fase da vida, ora na fase da morte. Todas as pessoas possuem esse “eu maior” dentro da própria vida.

Shin-iti afirmou que a visão de vida e de morte é que determina o rumo da existência de uma pessoa, e mais amplamente o de uma civilização.

Ele clamou pela mudança da civilização atual dominada pelos interesses do “eu menor” para uma outra base no “eu maior”, isto é, uma civilização que vive em sintonia com a vida do universo.

A voz de Shin-iti cresceu em intensidade ao declarar que o séculos 21 dever se o “Século da Vida”, no qual ela seja valorizada ao máximo.

- Tornar realidade o sonho de uma civilização que celebra o humanismo dependerá do nosso esforço em descobrir a verdadeira natureza da existência, que é eterna, imutável e invencível.

Shin-iti concluiu a palestra:

- Embora possa parecer um exagero, parece-me que até agora o homem vem sendo comandado pela ambição que o tem arrastado para a beira da destruição, não passando da fase de “animal irracional”. Nos Escritos de Nitiren Daishonin consta uma expressão que faz referência ao homem como “animal inteligente”. Os seres humanos não devem ser simplismente inteligentes, mas ter a inteligência para romper o egoísmo e conquistar o autodomínio espiritual. Ao encontrar esse caminho nos ensinamentos do Budismo, dei início à minha jornada espiritual. Espero que todos vocês, jovens construtores e pioneiros desse momento decisivo sem precedentes, reflitam também sobre o caminho da verdadeira independência humana. Hoje, compartilhei com vocês apenas alguns aspectos da sabedoria budista, na esperança de que possam ser úteis sob esses aspectos. Ficarei muito satisfeito se servissem como uma espécie de orientação ou inspiração. Muito obrigado”

*Shin-iti Yamamoto é o pseudônimo de Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (“Escola” Criadora de Valores), uma organização baseada na filosofia humanística do budismo de Nitiren Daishonin. A SGI é uma ONG filiada a ONU.

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Rubem Alves e a educação universitária

“Acho que qualquer aluno de mestrado tem mais informações sobre a bibliografia recente sobre a educação do que eu. Desconfio da leitura. Ela pode (note bem, eu só disse “pode”) produzir a cegueira. Isso se torna claro na universidade, que é o lugar onde se encontra a maior concentração de cegos que conheço. Perdão, a minha mania de exagerar! Não que sejam cegos. É que os olhos deles só vêem o que está escrito nos livros” (Rubem Alves in Cenas da Vida, p.106)

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