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Liberdade pra dentro da cabeça

Sempre tive o costume de ser chato, às vezes pra mim é algo tão natural que não percebo o quão chateados e emburrecidos as pessoas à minha volta ficam. E um dos assuntos que sempre “enchi o saco” é das pessoas que usam drogas (ilícitas).

Pra mim tal feito nunca foi algo muito difícil, primeiro porque sou chato e segundo por ter alguns amigos que usufruem de tal “prazer ilícito”. E um destes meus amigos, sempre argumentei com ele contra o uso de drogas – neste caso, o da maconha – pelos seguintes motivos: a minha oposição a droga nunca foi motivado pelo efeito químico (ou algo do tipo) e seu consequente vício, afinal sendo a escolha ao vício como algo decidido pela própria pessoa, o máximo que dá para fazer é dizer os consequentes efeitos negativos da droga.

Outro ponto da questão – na qual meu argumento não se baseia – é de que as drogas ilícitas como: maconha, cocaína, LSD, etc são drogas da mesma forma que as drogas “aceitáveis” como: bebidas alcoólicas, cigarros (tabacos) e mesmo remédios; a diferença consiste no grau de dependência, os efeitos nocivos e sobre sua procedência (legalidade/ilegalidade).

É importante destacar esta questão do legal e ilegal, para que não fique com a impressão de que eu tenha uma posição favorável aos atos ditos “ilegais”. A questão é: o que é legal e ilegal é determinado por uma jurisdição “aceita” (e/ou imposta) socialmente e tal decisão da (i)legalidade depende do que é legitimado e “negociado” no aspecto simbólico, ou seja, a legalidade seria a grosso modo as “normas” hegemônicas da sociedade.

A minha oposição ao uso das drogas ilícitas é devido ao “pano de fundo” dos processos por quais passam as drogas até chegarem ao consumidor ansioso pela busca do prazer (no popular: “barato”). Uma das questões era de que o comércio das drogas (tráfico de drogas) somente ocorre com o estímulo a corrupção. Muitos grupos no poder fazem “vista grossa” ao comércio ilegal em troca de subornos, exemplo disto é a polícia. Outro motivo é o conflito que o tráfico gera, pois possuir o poder de comercializar as drogas é um fator muito lucrativo, assim há sempre um conflito que envolvem “traficantes” (de grupos rivais), policiais e pessoas que não possuem nenhuma relação ao tráfico de drogas – dito pessoas “inocentes” -, ou seja, cria-se uma relação violenta, havendo portanto taxa de mortes (1) próxima aos países em guerra, não a toa este conflito denominado como “guerra urbana”(2).

Entretanto este amigo (defensor do uso das drogas) me questionou a respeito de minha opinião, dando o seguinte exemplo (3):

Você usando tênis Nike, sabe que há criancinhas e pessoas super-exploradas lá no Taiwan para fazer este tênis. Elas morrem de uma maneira bem rápida também. Você também está consumindo algo que gerou morte de várias pessoas.

E eu continuei escutando sua defesa:

E os trabalhadores de cana, que muitos morrem muito mais rápido. Quer dizer que pra você a vida do “avião” (4) é muito mais importante do que o trabalhador de cana?

Na hora fiquei sem resposta, sem argumento algum, tentei apenas balbuciar alguns argumentos fracos. E ele continuou:

Você então é hipócrita, porque em ambos os casos eles morrem da mesma forma e você contribui para isto, em diferentes formas de consumo.

De fato me achei (continuo achando) hipócrita, o que pensei na hora é que tais exemplos tanto dos trabalhadores em lavoura de cana e as criancinhas da Nike é consequência do sistema capitalista na qual vivemos, assim no limite nossa vida basicamente gira em torno do consumo e tais explorações no trabalho é derivada da sociedade consumista.

Creio que meu argumento de oposição ao uso das drogas seja fraco perante a estas situações negativas na sociedade contemporânea. Entretanto este argumento de que “se há outras formas nas quais as pessoas morrem tragicamente e banalmente, não havendo nenhum problema no consumo das drogas” é muito simplório. Afinal não é um argumento em que apresenta as drogas como negadora de qualquer tipo de problema social, é simplesmente um argumento em cima do que poderia ser chamar “sofrimento relativo”, ou seja, o argumento dos “males” causados por tal fenômeno social não se restringe apenas a este, há outros fenômenos que também originam os mesmos “males”. Destarte, não haveria nenhum problema no consumo das drogas, afinal mesmo com o comércio das drogas ilícitas possibilitando “tragédias fatais” de várias pessoas, o consumo de um calçado de uma empresa multinacional também acarretam as mesmas “tragédias”.

Enfim, qual é o problema de consumo de “produtos” oriundo de vidas em sofrimento? Sendo que todo mundo consome da mesma maneira, alimentando tais tragédias, afinal não é o capitalismo selvagem? Posso ser hipócrita, mas isso não torna o “problema” resolvido e nem como assunto acabado.

Notas de rodapé:

(1) No estado de São Paulo há um decréscimo na taxa de mortes motivados por uma nova “lei”.

(2) Termo do senso comum utilizado para a violência causada pelo tráfico de drogas.

(3) As citações não foram transcritas exatamente conforme ditas, pois não havia gravador ou algo do tipo na hora. Mas as ideias expressas são as mesmas.

(4) Seria grosseiramente o “entregador” da droga, não no sentido de “entregar em casa”, mas sim no “ponto” de venda de drogas.

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Resposta Inesperada.

Ler isto foi como uma suave e refrescante golfada de ar, atingindo todos os brônquios, bronquíolos e alvéolos. Cada centímetro destes. É como estar na planície, imenso céu azul, ensolarado, insetos voando, um verde mais verde, tomando uma brisa, sentado na grama.

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