Tagged with periferia

Resumo SBS 2011

Recentemente mandei um resumo para o congresso da SBS (Sociedade Brasileira de Sociologia) na categoria de “sociólogos do futuro” e ocorrerá entre os dias 26 e 29 de julho de 2011.

Este resumo é de meu trabalho de Iniciação Científica que realizo na instituição na qual faço graduação (UFSCar), cujo o título é Deslocamentos no rap e nas periferias urbanas: o percurso do Racionais MC’s.

Etiquetado , , , , , , , , , ,

O Invasor

De uns anos para cá é comumente o lançamento de filmes nacionais com a temática da criminalidade, havendo a justificativa de que tal criminalidade é produto da desigualdade social tão repetidamente citada tanto pela mídia, quanto pela população em geral. No cinema brasileiro esta temática também não é exceção.

Há muitos filmes policialescos de Hollywood que são grandes sucessos de bilheteria na qual apresentam um enredo de ações feitas possíveis somente por super-heróis. Explosões, tiroteios, perseguições, tudo para proteger o bem contra o mal. Os filmes de “ação” norte-americanos (leia-se filmes mainstream, onde há sim muitos tiros, mas com pouca “carnificina”) entretanto são um pouco mais suaves em relação a violência nas telas, afinal, eles são de um país de “primeiro-mundo”.

Já o Brasil por ser um país de pobreza e miséria, “motiva” uma tendência excessivamente mais violenta do que um país mais “desenvolvido”. O Brasil por ser um país de desigualdade social enraizada e a distância entre as extremidades das camadas sociais ser grande,”justifica” uma criminalidade tão eficiente*.

Por isso a excessiva violência gratuita – e claro divertida – dos filmes que tratam a “realidade” social brasileira. Filmes premiados como: Cidade de Deus, O Carandiru, Parada 174 e Tropa de Elite formam a máscara cinematográfica para o mundo. Muitos tiros, muito sangue, muitos palavrões e muito ódio, são ingredientes perfeitos para um bom filme nacional.

Mas eu sei que é muito feio a generalização, é claro que há filmes nacionais que não se utilizam da violência como prato principal. Um exemplo de filme desta forma é O Invasor (2001) do diretor Beto Brant, este filme me deixou muito surpreso (não no sentido de expectiva) pois é um filme brasileiro que trata sobre a criminalidade sem o usufruto da violência. Vamos ilustrar brevemente.

O enredo do filme é sobre a busca de poder e dinheiro por parte de dois sócios (Alexandre Borges e Marcos Ricca) de uma construtora em São Paulo, onde para que possibilite este “aumento de poder” os sócios encomendam o assassinato de um terceiro sócio da construtura através do “matador de aluguel” Anísio (Paulo Miklos). Porém a partir deste assassinato, as coisas começam a se complicar. O roteiro do filme lembra livros de thriller - ruins – tendo o sócio morto como pai de Marina (Mariana Ximenes), na qual esta se envolve afetivamente com o “bandidão” da história, o Anísio. Paulo Miklos faz o papel de um “malandro bandido” que é “sangue nos zóio”, entretanto Miklos mais parece uma caricatura de bandido, suas gírias e gestuais propriamente de membros da periferia se tornam muito forçados. Além disso, o filme é feito praticamente de “lugares comuns”. Alexandre Borges é o vilão que é rico e deseja mais poder, além de engenheiro tem uns bicos também como dono de puteiro; Marcos Ricca é o mocinho, bonzinho que quer sair da sujeira feita, ficando vingativo – e louco – no final da história; Mariana Ximenes é a menininha mimada, órfã de uma fortuna e quebra todas as regras “conservadoras” (como muitos jovens da classe média), gosta de balada e toma ecstasy. Não esquecendo também que Malu Mader interpreta a mulher que seduz o homem (que é facilmente enganado) em troca de dinheiro. Ela se envolve com Marcos Ricca – o ingênuo – em troca do dinheiro de Alexandre Borges – o vilão -, pois este também quer “passar” o último sócio e pseud0-melhor-amigo (Marcos Ricca).

Teoricamente o filme trata da relação de alguns membros da elite, que cometendo crimes, envolve membros da periferia para ajudá-los a conquistar tal objetivo. Mas até a metade, o filme tem como cenário a parte “burguesa”, deixando apenas uns 15 minutos tendo a periferia como cenário principal, isto também me surpreendeu, pois é comum a “contemplação” da miséria desta temática. Outra surpresa é que em nenhuma parte do filme houve mortes ou sangue, sendo um filme de criminalidade bem clean**. Mas já que não houve mortes e nem sangue, houve cenas de erotismo com as globais Mariana Ximenes e Malu Mader***.

É um filme bem familiar pra quem constuma assistir as novelas da Globo, muito tedioso para os fãs do Jack Bauer & Cia, muito interessante para quem gosta de personagens pré-determinados e triste para aqueles que ficaram sentados – ou deitados- em frente uma tela durante 97 minutos. Mas o que importa mesmo é que o diretor é conhecido e os atores são (sic) ótimos.

Observação: Foi neste filme que o rapper Sabotage ganhou notoriedade nacional. Nas cenas da periferia tinha como pano de fundo as suas músicas. No filme fez o papel de Sabotage, um rapper que conseguiu um dinheiro através do bandidão Anísio (Miklos) para iniciar sua carreira musical. Em poucos segundos de sua atuação, Sabotage já conseguiu esboçar seu carisma, pois quando ele passa pela secretária, ele elegantemente pega a mão da moça e lhe dá um beijo (o único momento que sorri no filme). Enfim, esta observação reflete o que mais valeu a pena, para mim, neste filme.

*Leia-se esse parágrafo com todas as aspas possíveis.

**Você se perguntou: “Como assim?”

***Idem.

Etiquetado , , , , , , ,

Literatura Marginal

Literatura da periferia, alguém já ouviu falar? É comumente escutar “favelado não tem cultura, blá blá blá”. Se fosse o palestrante-escritor de ontem ele falaria “Se fosse o mano da favela que não para de assistir a novela, aí sim, este não tem cultura mesmo”.

Este palestrante é o Ferréz – romancista, contista e poeta – do Capão Redondo, bairro periférico da cidade de São Paulo. Se tivesse levado meu vô (di-chan[i]) para a palestra ele diria: “O que esse gai-jin[ii] tá fazendo no palco?”

Para os literatos mais tradicionais achariam estranho um escritor de calça larga, corrente brilhante no pescoço e uma toca na cabeça. Mas foi este cara aí que me deu uma outra visão da literatura.

Em determinado momento da palestra, ele disse que hoje em dia o conteúdo dos livros nada tem haver com as pessoas realmente vivem – “É muito comum na favela a molecada falar sobre o Harry Potter com sua varinha mágica da felicidade, enquanto comentários sobre os livros na qual eles realmente vivem, não existem” – Mas de fato é de grande verdade esta situação, os livros mais vendidos tratam de mundo mágico, viagem na Europa, vida amorosa em Manhattan. Não que eu seja contra estes livros, melhor dizendo, não sou contra a livros bons. Sou contra os livros que ao invés de expandir nossa visão, nossa mente, ocorre o inverso, os encolhe.

O que também achei interessante é a capacidade do escritor de retratar fielmente a vida na periferia, porque atualmente, não há um retrato verdadeiro por parte da mídia, o que existe é uma distorção e um sensacionalismo do que se passa na favela. Não há a compreensão por parte da mídia de  “por que existem bandidos?”, um exemplo deste não entendimento está nos programas de começo de noite (e fim de tempo).

Tive a oportunidade de comprar um livro seu, Cronista de um tempo ruim[iii] da Selo Povo. É interessante o objetivo, por parte do Ferréz, destes livros. Os livros são vendidos em preços populares, 5 reais, o público-alvo do escritor, prioritariamente, é a periferia. O porquê deste objetivo é para a periferia ter um contato maior com a literatura, mas não qualquer literatura, aquela que retrata sua própria vida cotidiana.

Fiquei sabendo que o Ferréz fez de tudo para ter um preço popular como este. Procurou de todos os modos de diminuição do preço de produção, tipo de capa, de papel, quantidade de páginas, a arte da capa… Tudo isto, pois se fosse a outras editoras o preço iria para o dobro ou triplo do preço. Ferréz não tem quase nenhum retorno financeiro com os livros, tudo o que ele quer mesmo é traficar inteligência[iv].

Depois de tudo isto, fui em um palquinho[v] lá na UFSCar, e coincidentemente eram 2 grupos de rap da cidade se apresentaram: Ébanu’s e Sub Loco. Naquele momento o palco era de pessoas que são oprimidas por muitos pais de playboys que estavam lá. Agora era a vez de o boyzinho escutar quieto.

 

 


[i] Avô em japonês.

[ii] Estrangeiro em japonês, no sentido pejorativo.

[iii] Contém textos publicados na Revista Caros Amigos, Jornal Folha de S. Paulo, Le Mond Diplomatic Brasil, Revista Trip e Relatório da ONU.

[iv] “O meu sonho é um dia, quando a polícia parar o mano na rua e querer revistar. O mano vai dizer: Pô já vendi tudo o que eu tinha. Ou se tivesse alguns livros, ele diria: Pode levar, não tem problema não, to traficando inteligência” Ferréz.

[v] Área de convivência das universidades, onde há apresentação musicais, manifestações universitárias.

Etiquetado , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.