De uns anos para cá é comumente o lançamento de filmes nacionais com a temática da criminalidade, havendo a justificativa de que tal criminalidade é produto da desigualdade social tão repetidamente citada tanto pela mídia, quanto pela população em geral. No cinema brasileiro esta temática também não é exceção.
Há muitos filmes policialescos de Hollywood que são grandes sucessos de bilheteria na qual
apresentam um enredo de ações feitas possíveis somente por super-heróis. Explosões, tiroteios, perseguições, tudo para proteger o bem contra o mal. Os filmes de “ação” norte-americanos (leia-se filmes mainstream, onde há sim muitos tiros, mas com pouca “carnificina”) entretanto são um pouco mais suaves em relação a violência nas telas, afinal, eles são de um país de “primeiro-mundo”.
Já o Brasil por ser um país de pobreza e miséria, “motiva” uma tendência excessivamente mais violenta do que um país mais “desenvolvido”. O Brasil por ser um país de desigualdade social enraizada e a distância entre as extremidades das camadas sociais ser grande,”justifica” uma criminalidade tão eficiente*.
Por isso a excessiva violência gratuita – e claro divertida – dos filmes que tratam a “realidade” social brasileira. Filmes premiados como: Cidade de Deus, O Carandiru, Parada 174 e Tropa de Elite formam a máscara cinematográfica para o mundo. Muitos tiros, muito sangue, muitos palavrões e muito ódio, são ingredientes perfeitos para um bom filme nacional.

Mas eu sei que é muito feio a generalização, é claro que há filmes nacionais que não se utilizam da violência como prato principal. Um exemplo de filme desta forma é O Invasor (2001) do diretor Beto Brant, este filme me deixou muito surpreso (não no sentido de expectiva) pois é um filme brasileiro que trata sobre a criminalidade sem o usufruto da violência. Vamos ilustrar brevemente.
O enredo do filme é sobre a busca de poder e dinheiro por parte de dois sócios (Alexandre Borges e Marcos Ricca) de uma construtora em São Paulo, onde para que possibilite este “aumento de poder” os sócios encomendam o assassinato de um terceiro sócio da construtura através do “matador de aluguel” Anísio (Paulo Miklos). Porém a partir deste assassinato, as coisas começam a se complicar. O roteiro do filme lembra livros de thriller - ruins – tendo o sócio morto como pai de Marina (Mariana Ximenes), na qual esta se envolve afetivamente com o “bandidão” da história, o Anísio. Paulo Miklos faz o papel de um “malandro bandido” que é “sangue nos zóio”, entretanto Miklos mais parece uma caricatura de bandido, suas gírias e gestuais propriamente de membros da periferia se tornam muito forçados. Além disso, o filme é feito praticamente de “lugares comuns”. Alexandre Borges é o vilão que é rico e deseja mais poder, além de engenheiro tem uns bicos também como dono de puteiro; Marcos Ricca é o mocinho, bonzinho que quer sair da sujeira feita, ficando vingativo – e louco – no final da história; Mariana Ximenes é a menininha mimada, órfã de uma fortuna e quebra todas as regras “conservadoras” (como muitos jovens da classe média), gosta de balada e toma ecstasy. Não esquecendo também que Malu Mader interpreta a mulher que seduz o homem (que é facilmente enganado) em troca de dinheiro. Ela se envolve com Marcos Ricca – o ingênuo – em troca do dinheiro de Alexandre Borges – o vilão -, pois este também quer “passar” o último sócio e pseud0-melhor-amigo (Marcos Ricca).
Teoricamente o filme trata da relação de alguns membros da elite, que cometendo crimes, envolve membros da periferia para ajudá-los a conquistar tal objetivo. Mas até a metade, o filme tem como cenário a parte “burguesa”, deixando apenas uns 15 minutos tendo a periferia como cenário principal, isto também me surpreendeu, pois é comum a “contemplação” da miséria desta temática. Outra surpresa é que em nenhuma parte do filme houve mortes ou sangue, sendo um filme de criminalidade bem clean**. Mas já que não houve mortes e nem sangue, houve cenas de erotismo com as globais Mariana Ximenes e Malu Mader***.
É um filme bem familiar pra quem constuma assistir as novelas da Globo, muito tedioso para os fãs do Jack Bauer & Cia, muito interessante para quem gosta de personagens pré-determinados e triste para aqueles que ficaram sentados – ou deitados- em frente uma tela durante 97 minutos. Mas o que importa mesmo é que o diretor é conhecido e os atores são (sic) ótimos.
Observação: Foi neste filme que o rapper Sabotage ganhou notoriedade nacional. Nas cenas da periferia tinha como pano de fundo as suas músicas. No filme fez o papel de Sabotage, um rapper que conseguiu um dinheiro através do bandidão Anísio (Miklos) para iniciar sua carreira musical. Em poucos segundos de sua atuação, Sabotage já conseguiu esboçar seu carisma, pois quando ele passa pela secretária, ele elegantemente pega a mão da moça e lhe dá um beijo (o único momento que sorri no filme). Enfim, esta observação reflete o que mais valeu a pena, para mim, neste filme.
*Leia-se esse parágrafo com todas as aspas possíveis.
**Você se perguntou: “Como assim?”
***Idem.