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Noite de Maio

Noite de Maio – Henrique Y. Takahashi

Noite de Maio. Cidade do ar abafado, cidade da boemia, cidade iluminada pelos bares e pelos carros. Avenida principal é uma das maiores atrações: bela arquitetura, belos prédios, bares badalados, fluxo interminável de carros e pessoas, enfim, paisagem urbana noturna típica.

Muitas pessoas estão se divertindo, se conhecendo, se despedindo. Algumas imperceptivelmente estão roubando, pixando, catando latinhas de alumínio ou pedaços de papelão, uma das atividades produtivas que mais crescem entre moradores de rua.

Carros “tunados” com o som no máximo, pode ser eletrônico, axé ou sertanejo. Carro emprestado do pai com um motorista que pretende simular os jogos de video-game. Carro que pode ser um A3, um Astra ou um Stilo, aquele amarelo com sky window (o nem tanto popular teto-solar).

É em um destes bares que possui um grupo de jovens na qual limitei-me naquela noite. Não são nem crianças, nem adultos. Uma confusão e hibridismo de corpo e mente; ora infantil, ora madura. Estão todos rindo com base na bebida popular brasileira, a cerveja. O suor da bebida escorre com o tempo das conversas, dos mais variados assuntos, papo de bar. As mesas estão na calçada, um punhado delas, muitas pessoas estão no mesmo ritual. A proximidade dos corpos e o relativo ar abafado da cidade contribuem para o suor da cerveja, na qual esquenta com rapidez.

Uma moça de feição esbelta, com o cabelo curto representado pela sua personalidade forte, se levanta da mesa e vai até o banheiro. Na mesa, um sujeito com um tom jocoso diz: “Vai lá cara!”. “Mas…” gagueja o jovem com expressão insegura, motivado também pela sua inexperiência com relações afetivas. O rapaz levanta-se rapidamente da mesa, sem chamar atenção do grupo que continuava a conversa de “alguma história humorística na vida”, entra no bar a procura do banheiro.

Não encontrou a moça, prefere ir no banheiro para “aliviar um pouco a tensão e o ‘joelho’”. Enquanto urinava, além de relaxar, começava se acalmar para os próximos decisivos minutos. Dá a descarga, esbarra com um sujeito e lava as mãos na minúscula pia. Ajeita o cabelo com as mãos, para que tudo esteja em seu devido lugar. Sai alegremente do banheiro quando esbarra com a moça na qual flertava. “Oi…” diz com um sorriso nervoso – “Preciso falar com você”. Com um olhar indiferente a moça segue mudamente o rapaz.

Ao sair do bar e deparar com a avenida cheia de pessoas, ambos sentem um baque do frio. Dentro do bar mantinha o ar abafado, mas fora do estabelecimento já havia esfriado o bastante para se arrepiar. Passaram-se algumas horas, era a mudança rápida no clima comumente do mês de maio. O jovem levou a moça para um local menos barulhento e mais particular, ao lado de um bar de esquina com a avenida. Possuia uma loja de antiguidades na qual estava fechada pelo horário de atendimento, havia um banco feito com tronco de madeira. Ambos sentaram no frio. Uma árvore cobria-os da iluminação do poste, criando um ar de aconchego de intimidade, que ajudou o jovem tímido a balbuciar e esconder seu rosto avermelhado – da vergonha e do frio. Com as mãos dentro do moletom iniciou a conversa, ambos já se “conheciam” durante um certo tempo, mas nunca se aproximaram tanto quanto naquela noite. A moça dizia: “Nunca imaginava a gente…” e assim esboçava um sorriso deixando a frase incompleta, entendendo-se por si própria.

Os amores são simples, surgidas por expressões e não por palavras. Compreende-se tudo, o porquê do olhar vazio, do olhar para o chão, do olhar fixo. Pelo menos poupa as palavras desconexas do jovem envergonhado, palavras que mesmo sem lógica possui compreensão por parte do outro.

Com a situação entre o intimismo e aconchego que a penumbra, a proximidade dos corpos pelo frio e a sós criava, contrastava com a barreira das frases soltas, da vergonha e da infância de contato superficial. Mas estava frio, a fumaça que saia da boca era um sinal da baixa temperatura. Com o frio, naturalmente os corpos se aproximavam para esquentarem, algo do inconsciente. Com a proximidade, todas as feições se tornam mais nítidas, mais detalhadas. Os lábios da moça estavam levemente trêmulas, a cada inspiração seca, soltava o pouco ar quente do corpo. Estavam com frio, se aproximaram demais.

Nenhum aquecedor ou lareira supera o calor do toque entre corpos. A sensação térmica da mão gelada com o outro corpo coberto com uma blusa grossa e os batimentos cardíacos, aquecem rapidamente qualquer corpo. As mãos que tocavam lentamente o corpo, sentia-se o mesmo calor de um banho quente. Os lábios já não tremiam mais, já não havia mais nenhuma barreira entre eles.

Após lentamente recobrarem a consciência, a moça diz: “Parece beijo de adolescente…”. O jovem enrubesce, mais do que o frio produzia. Ambos se levantaram e voltaram para a mesa. Havia dois corpos frios a menos naquela noite e um banco de madeira como testemunha.

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Arte noturna sãocarlense.

Miscelânea Noturna – Henrique Y. Takahashi

  

Noite de sexta

indecisão

entre sim

e o não.

  

Noite agradável

não muito frio.

Ao som do sax

tocando no brio.

  

Chego na porta,

vazio,

nem ao menos,

burburinho.

 

Espero

algo

e para minha supresa,

sorriso.

 

Cantada

mal pronunciada

ou uma pessoa

sem alma lavada?

 

A noite continua

como sempre,

desta vez

ao som do samba.

 

Passos precisos

delicados

cheios de gingados

entre namorados.

 

Não é somente

movimento.

É

o momento.

 

Entre dois

entre todos

entre ela

entre ninguém.

 

Acaba a arte

de bailar,

inicia-se outra

a de interpretar.

 

Mudança radical na atmosfera

o ar pesa,

dificulta a respiração,

por causa de única expressão.

 

Como é incrível

a capacidade deles

de fazer-nos

imergir.

 

Indagação

Risada

Indignação

Gargalhada.

 

 Mesmas pessoas

com diferentes

feições,

emoções.

 

Camaleões

da interpretação!

Vossa tela,

expressão.

 

 

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