Remédio de Vinícius – Henrique Y. Takahashi
Odeio levar bêbado para casa. São dez horas da manhã, o sol está intenso e estou com fome, fome de ressaca talvez. Além de estar carregando um senhor de idade de porre para o seu pequeno apartamento recém-alugado. Parece um gesto caridoso por parte de um jovem, ajudar um coitado “de idade”. Até parece.
Esse tal senhor coitado excede de mais na bebida, regada principalmente com Black & White. Segundo ele, o uísque é o cão engarrafado do homem, além de ser “bom” para as cordas vocais. Sempre com alguma desculpa, teimosia da idade creio eu.
Mas não consegui me concentrar hoje nas conversas dos diversos músicos, escritores, poetas e vagabundos – é claro que não é redundância – que estavam no butiquim. Me arrependi um pouco, pois sempre há causos épicos que nem sempre são verdadeiras, porém divertidíssimas. Estou um pouco “avoado”, combati com uma dosinha. Mas não estou tão ruim quanto o poetinha.
“Vinícius” – disse para acordá-lo para pelo menos conseguir subir as escadas. Não fui rude com uma pessoa idosa, até porque a ocasião não permitia tanta cerimônia. “Vinícius!” – berrei novamente para que ele não beijasse as escadas que estava subindo. Puxei-o com força até a porta do apartamento: “Vinícius, onde está as suas chaves?” – tornei a chamar o poetinha. “Ahn” – me respondeu com o seu hálito de álcool. “As chaves!” – chacoalhei seus ombros. “Não faço a menor idéia” – disse-me calmamente. Pensei comigo: “Pelo amor…”, forcei a porta na esperança de que ocorresse um milagre e assim aconteceu. A porta estava aberta, olhei atônito para o senhor semi-inconsciente e empurrei-o para dentro do apartamento, deitando-o numa poltrona empoeirada.
Não somente a poltrona estava empoeirada, mas a casa inteira. “Você tem que dar um jeito neste lugar” – disse abrindo a janela com certa dificuldade. A fechadura estava enferrujada, forcei-o até que entrasse um feixe de luz que iluminava a poeira paralizada no ambiente. Após tirar o fardo de minhas costas, pude ver o céu e o sol que já estavam se preparando para chegarem no seu auge. Vi pessoas caminhando para algum lugar, uma senhora e um menino tomando sorvete e um cachorro procurando alimento. “Vinícius?” – chamei. “O que me diz rapaz?” – respondeu. “Posso pegar comida?” – tornei a perguntar. “Hi, hi, hi, que fome ein rapaz? Pode sim meu caro” – sorriu para mim.
Fui para a cozinha, havia pratos sujos na pia, mas o fogão estava limpo execeptualmente pela poeira. Abri a velha geladeira encontrando um pedaço de queijo Roquefort, várias garrafas de vinho e fatias de presunto. “Como que ele sobrevive assim?” – pensei com os meus botões, fui pegar o queijo e escutei: “Menos o meu queijo!” – gritando zonzamente. Peguei o presunto e caminhei até a janela, novamente. Vi que o cachorro de feições sofridas e rabo cortado ainda estava procurando migalhas no lixo. Assoviei para o pobre animal, que me olhou assutadamente, joguei as fatias de presunto com pena do vira-lata. “Este é o Marreco” – disse Vinícius com uma voz decidida: “Ele foi o cão de Nelitinha, não consigo cuidá-lo dele, por favor cuide-o para mim”. Para mim era mais de uma das histórias de Vinicius, não estava muito paciente para as suas brincadeiras.
Continuei olhando para o cão que agora se deliciava com sua migalha.”Vinícius…” – chamei-o desta vez como alguém que chama o irmão mais velho. Ele fitou-me com serenidade, mesmo estando em fogo: “Deixe-me preparar, pegue o uisquinho que está no armário. Os copos estão na porta de cima”. Não titubiei, quem sou eu para dar bronca a um velho teimoso? Peguei o uísque, um copo e iria pegar o gelo na geladeira. “Não precisa menino, prefiro sem gelo” – disse-me como se adivinhasse de minha caminha à geladeira.
Silenciosamente enchi seu copo e entreguei-o com todo o cuidado. “Onde está Nelita?” – perguntei curioso. “Ela me abandonou… e eu a abandonei” – disse o poeta que lacrimejava tomando o seu primeiro gole do uísque. “Vinícius…” – respirei um pouco – “Por que você se separou de tantas mulheres? Sabe… elas não são brinquedinhos”. O poeta percebeu meu ar grave e respondeu-me com ar todo pomposo: “De repente, não mais que de repente/ Fez-se de triste o que se fez amante/ E de sozinho o que se fez de contente./ Fez-se do amigo próximo o distante/ Fez-se da vida uma aventura errante./ De repente, não mais que de repente”.
Sabia que Vinícius estava fazendo pose, mas compreendi o que disse, fiquei alguns segundos digerindo o que havia me dito. Fixei meu olhar para o tapete embolorado da sala, um silêncio de ternura perdurou. Encarei-o novamente, o poetinha já havia terminado sua dose e sorridentemente me disse: “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”. Vinícius me encarou e disse: “Com ou sem gelo?”.
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