Tagged with mídia

Restart e “revolução”

Após ter escrito sobre o rap nacional, sobre sua importância da contestação em suas letras e a seriedade das suas músicas, venho a escrever agora sobre um gênero musical que influencia tanto musicalmente, quanto esteticamente os jovens atualmente. Venho a escrever sobre os “felizes”, “amáveis”, “doces” e “coloridos” novos emos.

Parece muito brusca a mudança no tipo de música que venho a fazer neste momento, mas é por um simples motivo: este novo gênero musical é um dos principais (ou o principal) estilo vigente entre os jovens adolescentes. Pois em muitos lugares se vêem as pessoas comentando a respeito destes jovens que decepcionam os pais por serem o que são, por serem “sensíveis” de mais (ou no popular: “viado”), que a música é horrível e que os amantes do rock n’ roll os odeiam por ser o representativo do rock atualmente.

A intenção de escrever sobre o assunto é justamente ir contrário a todos estes tipos de comentários e analisar este gênero musical sem pré-críticas formuladas.

Primeiramente iremos fazer uma linha de tempo – inversa – sobre as alterações musicais e estilísticos até chegarem no que hoje podemos chamar de “happy emo” ou “color emo”*. Este “emo feliz” vem do que alguns anos atrás era denominado como emo, na qual derivou do emocore. A caracterização do emocore era da típica franja lisa – ou alisada -, vestimentas de tons sombrios, tênis All Star e maquiagem de tons escuros; isto no âmbito da estética. Musicalmente os emos - da mesma forma que os “happy emos” – possuem musicas que tratam sobre relacionamentos afetivos, na maioria das vezes de maneira problemática. São também conhecidos por terem afeições homossexuais e/ou bissexuais pelo caráter sentimental das músicas que acarretariam em uma efeminação por parte dos homens**.

Podemos fazer uma comparação em relação aos dois gêneros musicais: o “happy emo” e o “emocore” (na respectiva ordem).

O primeiro é perceptivelmente mais “alegre”, possui um som mais “leve”. Já o segundo na própria voz do vocalista percebemos o caráter mais melancólico da música. Ambos tratam sobre o amor, entretanto a primeira música é mais próximo a um tipo de “relação amorosa de adolescentes, porém banal”, já o segundo tem um caráter mais depressivo da relação amorosa, um teor de solidão.

O termo emocore é derivado de emotional hardcore, ou seja, provém do gênero musical hardcore com sua bateria e guitarras bem pesadas – um som praticamente frenético – porém com as letras “emotivas”.

Exemplos ilustrativos do hardcore seriam:

O primeiro é a música Tarde de Outubro do grupo CPM 22 e o segundo é Zero e Um do grupo Dead Fish. É notável que a primeira música possui a bateria, as guitarras e a voz do vocalista mais “amenas” do que o segundo grupo. Poderíamos dizer de maneira bem simplória que o primeiro grupo estaria mais próximo ao que futuramente seria emocore e o segundo ser mais próximo ao que consideraria o hardcore.

É importante frisar que as transformações dos gêneros musicais se dão com o tempo, por exemplo: os grupos “happy emos” atuais surgiram muito recentemente (aproximadamente há 2 a 3 anos), os emos surgiram aproximadamente há 5 a 7 anos e o hardcore - pelo menos mais visivel na mídia mainstream - na virada da década de 90 para os anos 2000.

Sobre o hardcore, sua origem deve-se muito ao punk que na década de 80 (no exterior, no Brasil surge mais nos anos 90) foi marcada pelo seu caráter contestatório. Não é a toa que o grupo Dead Fish em uma de suas músicas possuí o caráter contestatório:

Impunidade usada pra vencer/Comprada com os seus votos e sua omissão/Legislar ou pedir pão/Não seja tão honesto ou irá morrer!/Se resignar e aceitar/Se eles são apenas dez?/Não terá o seu quinhão/Tão sujo quanto o deles. (Tão Iguais – Dead Fish)

No cenário punk temos o grupo Blind Pigs representativo no Brasil e o clássico Sex Pistols com Anarchy in UK.

Conformismo e resistência/Conformismo e resistência/Progresso é a nossa penitência.

Catequizamos os índios/Massacrando a sua cultura/Pelo menos eles foram para o céu/Assim construímos a nação. (Conformismo e resistência – Blind Pigs)

I’m antichrist, I’m anarchist/Don’t know what I want/But I know how to get it/I wanna destroy the passerby. (Anarchy in UK – Sex Pistols)

Portanto até aqui houve um movimento comparativo entre “happy emo”, emocore, hardcore e o punk (poderíamos ir até o rock ‘n’ roll, mas não é do interesse); o que foi demonstrado até agora a “atenuação” tanto musical – em relação ao “peso” da bateria, guitarras, contrabaixo e vocal – quanto das letras – de caráter contestatório até chegar ao amor adolescente – é claro que tal comparação é muito simplista e poderia haver outras formas de comparação que não caberia fazer neste momento.

Mas além desta “atenuação” temos também algumas “heranças” deixadas desde o movimento punk até os “happy emos” e uma dela seria o próprio “visual”. As calças justas – e coloridas – tão marcadamente dos “happy emos” na realidade é uma “herança” dos punks ingleses, porém estes utilizavam de calças de couro e na maioria das vezes eram escuras.

Há também os piercings que cada vez mais é comum entre os jovens adolescentes. Piercings nas orelhas, no nariz, nos lábios, nas sombrancelhas, moda que se tornou bem conhecida através dos punks.

A moda é uma questão importante pra ambos os casos. Mesmo analisando comparativamente os “happy emos” com os punks e percebendo assim várias diferenças, o que é marcadamente presente nos dois é a moda que se prevalece. Assim além da importante caracterização musical dos gêneros musicais, a estética é um fator determinante também.

Os “movimentos culturais” dos jovens sempre foram marcados por uma “revolução”***. O Rock ‘n’ Roll – de Elvis Presley – trouxe um “gingado” antes jamais pensado, os punks trouxeram uma contestação anárquica jamais vista em gêneros musicais e o movimento hippie trouxe a noção de Peace and Love. Todos estes tipos musicais sempre tiveram oposição às normas hegemônicas da sociedade, pela quebra de paradigmas, sempre havendo várias críticas em torno de tais gêneros musicais. Com o “happy emo” também ocorre a mesma coisa, a diferença é que estamos “vivendo” tal mudança (não havendo uma perspectiva histórica do assunto), mas também o conteúdo apelativo ao consumismo das vestimentas (da moda) e a abordagem praticamente de um único tema: o amor adolescente, faz com que esses jovens sejam uma fácil massa de manobra da mídia.

*Termos criados pelo próprio autor.

**Isto segundo os jovens mais próximos a este estilo musical.

***Não no sentido estrito do termo, pois muitas vezes a transformação era baseada no que anteriormente era vigente, ou seja, no que era hegemônico.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , ,

O Invasor

De uns anos para cá é comumente o lançamento de filmes nacionais com a temática da criminalidade, havendo a justificativa de que tal criminalidade é produto da desigualdade social tão repetidamente citada tanto pela mídia, quanto pela população em geral. No cinema brasileiro esta temática também não é exceção.

Há muitos filmes policialescos de Hollywood que são grandes sucessos de bilheteria na qual apresentam um enredo de ações feitas possíveis somente por super-heróis. Explosões, tiroteios, perseguições, tudo para proteger o bem contra o mal. Os filmes de “ação” norte-americanos (leia-se filmes mainstream, onde há sim muitos tiros, mas com pouca “carnificina”) entretanto são um pouco mais suaves em relação a violência nas telas, afinal, eles são de um país de “primeiro-mundo”.

Já o Brasil por ser um país de pobreza e miséria, “motiva” uma tendência excessivamente mais violenta do que um país mais “desenvolvido”. O Brasil por ser um país de desigualdade social enraizada e a distância entre as extremidades das camadas sociais ser grande,”justifica” uma criminalidade tão eficiente*.

Por isso a excessiva violência gratuita – e claro divertida – dos filmes que tratam a “realidade” social brasileira. Filmes premiados como: Cidade de Deus, O Carandiru, Parada 174 e Tropa de Elite formam a máscara cinematográfica para o mundo. Muitos tiros, muito sangue, muitos palavrões e muito ódio, são ingredientes perfeitos para um bom filme nacional.

Mas eu sei que é muito feio a generalização, é claro que há filmes nacionais que não se utilizam da violência como prato principal. Um exemplo de filme desta forma é O Invasor (2001) do diretor Beto Brant, este filme me deixou muito surpreso (não no sentido de expectiva) pois é um filme brasileiro que trata sobre a criminalidade sem o usufruto da violência. Vamos ilustrar brevemente.

O enredo do filme é sobre a busca de poder e dinheiro por parte de dois sócios (Alexandre Borges e Marcos Ricca) de uma construtora em São Paulo, onde para que possibilite este “aumento de poder” os sócios encomendam o assassinato de um terceiro sócio da construtura através do “matador de aluguel” Anísio (Paulo Miklos). Porém a partir deste assassinato, as coisas começam a se complicar. O roteiro do filme lembra livros de thriller - ruins – tendo o sócio morto como pai de Marina (Mariana Ximenes), na qual esta se envolve afetivamente com o “bandidão” da história, o Anísio. Paulo Miklos faz o papel de um “malandro bandido” que é “sangue nos zóio”, entretanto Miklos mais parece uma caricatura de bandido, suas gírias e gestuais propriamente de membros da periferia se tornam muito forçados. Além disso, o filme é feito praticamente de “lugares comuns”. Alexandre Borges é o vilão que é rico e deseja mais poder, além de engenheiro tem uns bicos também como dono de puteiro; Marcos Ricca é o mocinho, bonzinho que quer sair da sujeira feita, ficando vingativo – e louco – no final da história; Mariana Ximenes é a menininha mimada, órfã de uma fortuna e quebra todas as regras “conservadoras” (como muitos jovens da classe média), gosta de balada e toma ecstasy. Não esquecendo também que Malu Mader interpreta a mulher que seduz o homem (que é facilmente enganado) em troca de dinheiro. Ela se envolve com Marcos Ricca – o ingênuo – em troca do dinheiro de Alexandre Borges – o vilão -, pois este também quer “passar” o último sócio e pseud0-melhor-amigo (Marcos Ricca).

Teoricamente o filme trata da relação de alguns membros da elite, que cometendo crimes, envolve membros da periferia para ajudá-los a conquistar tal objetivo. Mas até a metade, o filme tem como cenário a parte “burguesa”, deixando apenas uns 15 minutos tendo a periferia como cenário principal, isto também me surpreendeu, pois é comum a “contemplação” da miséria desta temática. Outra surpresa é que em nenhuma parte do filme houve mortes ou sangue, sendo um filme de criminalidade bem clean**. Mas já que não houve mortes e nem sangue, houve cenas de erotismo com as globais Mariana Ximenes e Malu Mader***.

É um filme bem familiar pra quem constuma assistir as novelas da Globo, muito tedioso para os fãs do Jack Bauer & Cia, muito interessante para quem gosta de personagens pré-determinados e triste para aqueles que ficaram sentados – ou deitados- em frente uma tela durante 97 minutos. Mas o que importa mesmo é que o diretor é conhecido e os atores são (sic) ótimos.

Observação: Foi neste filme que o rapper Sabotage ganhou notoriedade nacional. Nas cenas da periferia tinha como pano de fundo as suas músicas. No filme fez o papel de Sabotage, um rapper que conseguiu um dinheiro através do bandidão Anísio (Miklos) para iniciar sua carreira musical. Em poucos segundos de sua atuação, Sabotage já conseguiu esboçar seu carisma, pois quando ele passa pela secretária, ele elegantemente pega a mão da moça e lhe dá um beijo (o único momento que sorri no filme). Enfim, esta observação reflete o que mais valeu a pena, para mim, neste filme.

*Leia-se esse parágrafo com todas as aspas possíveis.

**Você se perguntou: “Como assim?”

***Idem.

Etiquetado , , , , , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.