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O que é haicai?

Perguntaram-me se um poema postado na internet era um haicai. Olhei para o poema e a primeira coisa que me veio à cabeça: Não é um haicai.

É bom deixar claro que, não sou nenhum especialista de haicai ou coisa parecida. Toda opinião emitida será dada como alguém que aprecia o haicai, o poema, a literatura. Sei muito pouco a respeito das inúmeras técnicas existentes dentro da literatura para formar uma “obra prima” (sem entrar no debate do que é obra prima). Enfim, opino como um admirador da poesia que, quando instigado por esta singela arte, arrisco rabiscos.

Mas por que o poema da internet não era um haicai?

Porque o haicai “abrasileirado” é considerado como um poemeto de três versos compostos por 17 sílabas (divisão silábica de acordo com a sonoridade). E esta divisão silábica se dá nos versos em 5-7-5, havendo também, de acordo com alguns haicaístas uma métrica (por exemplo: Guilherme de Almeida), na qual há uma rima do primeiro com o terceiro verso e uma rima interna no segundo verso (não me lembro, mas creio que a rima interna é dada pela 4ª sílaba e pela última sílaba).

Exemplo:

 

________________  X

___ O _________________ O

_________________ X

Mas todas estas métricas (que são úteis até certo limite) não foram provindas do Japão, mas sim de traduções de haicais franceses e ingleses. Pois há várias coisas que existem no haicai japonês que não existem nos haicais ocidentais.

O haicai japonês tem uma semântica, que a meu ver, torna seu sentido poético muito profundo. A língua japonesa é uma língua milenar e o que faz mais diferença, nesta profundidade, é sua cultura, milenar, pois várias palavras japonesas são praticamente intraduzíveis em qualquer língua “ocidental”. O significado de uma pequena palavra pode ter um sentido muito profundo, por exemplo: wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão)[i]

Outro ponto importante no haicai japonês é a presença do kigo que se refere à estação do ano. No Japão é muito claro a passagem das estações: verões quentes e radiantes, outonos bronzeados de folhas forradas no chão, invernos frios de àrvores nuas e as famosas cerejeiras rosadas e pomposas; mas a estação do ano referente no haicai é de acordo com as estações da ilha central japonesa, pois tanto no norte (ilha de Hokkaido), como no sul (Okinawa) as estações variam de forma diferente.

Mas para mim o que importa mais no haicai, seria o seu espírito, o “espírito do haicai”. O haicai deve ser feito de maneira concisa, condensada, que expresse em poucas palavras uma imagem de reflexão. Exatamente, uma imagem, é o que deve vir à mente quanto se lê um haicai. A expressão de algo, que cause reflexão, emoção, de maneira intuitiva na forma de uma imagem.

Darei o exemplo de um dos precursores do haicai no Japão, um haicai do mestre Bashô:

  

furuike

kaeru ga tobu

mizu no oto

 

Sua tradução por H. Masuda Goga:

 

velha lagoa

o sapo salta

o som da água

Neste haicai é claro a simplicidade que é feita, além da imagem (e do som também) que vem quando se lê.

Como dito anteriormente, a língua japonesa tem palavras não traduzíveis a outra língua ocidental, por isso, ao traduzir, perde-se muito do conteúdo, significado, sentido, sentimento e emoção do haicai. Darei um exemplo do mesmo haicai exposto anteriormente:

 

Um velho tanque

Uma rã nela mergulha

Ruído nágua

(Tradução de Oldegar Vieira, em O Haikai, 1975).

Alguns tradutores de haicai, para não perder seu conteúdo essencial, traduzem sem se preocupar com a regra métrica, dando o exemplo do mesmo poema, traduzido por Venceslau de Moraes:

 

Um templo, um tanque musgoso

Mudez, apenas cortada

Pelo ruído das rãs

Saltando à água… mais nada

Em poucas palavras espero ter apresentado um tipo de poesia pouquíssimo conhecida, de uma simplicidade imensa e uma capacidade de expressão muito bela.

Referência Bibligráfica:

GOGA, H. M. – O haicai no Brasil – São Paulo: Editora Oriento, 1988.


[i]Estas “traduções” não passam de aproximações que não exprimem toda a singularidade e profundidade dessas palavras, produtos puros, digamos assim, da multimilenar cultura japonesa. (N. do T.)

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Haicai (2)

“lente embaça

na estrada adiante

calor chuvoso”

 

 

“vidro opaco

ônibus chacoalha

gota escorre”

 

 

“as folhas chiam

de àrvores altivas

ventos entortam”

 

Yoshinori Kiku.

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Haicai

“pássaros piam

sob o grande azul

entre abelhas

 

“a jovem caminha

entre a multidão

sozinha”

 

“a pétala flutua

para poça d’água

após chover”

 

Yoshinori Kiku.

 

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