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Mulher Simpática

Mulher simpática – Henrique Y. Takahashi

Ah… a mulher simpática. Que dureza esta vida, simplismente pela existência desta desoladora, deste hipnótico ser feminino que ilude todas as esperanças amorosas dos marmanjos babões e que vivem simplimente para encher o copo de narcisismo.

Sempre malandra, sempre simpática. Sempre sorridente, sempre atraente. Ah… como um simples “bom dia” e “obrigada” faz com que se torne algo tão cheio de delicadeza, tão lindo,  tão belo. Como um ser tão cético quanto a mim, pode passar a compreender a etimologia da palavra encanto? Encanto: palavra ou frase que possui poderes de enfeitiçar.

Já dizia Vinícius em sua famosa receita: “que olhe com uma certa maldade inocente”. É essa inocência com um fundo de maldade é o que atrai todos os olhares para a mulher simpática, é como se fosse a atração dos planetas em torno do Sol, ou seja, até esta atração “atrai” atenção científica. E os olhos quando se encontram? É fatal, é como um flash de poucos segundos que tornam estáticas em nossa cabeça.

Não pretendo magoar alguma mulher, mas nem todas são “mulheres simpáticas”, ou melhor estas são raras, são tão raras quanto intelectuais humildes. Minto eu, não serei injusto com elas, há sim várias mulheres simpáticas. Têm as simpáticas por educação, as simpáticas pela delicadeza e meiguice, entretanto a “simpática” de quem eu falo, esta sim é rara.

É aquela mulher que sempre está sorrindo, não que o tempo todo esteja sorrindo, mas quando você olha para ela, de repente, ela mostra toda sua beleza em um único gesto. É aquela que possui olhar de medusa, que te paraliza. É aquela que você pode estar o mais longe possível dela, mas há a sensação de que ela está te olhando pelos cantos dos olhos. É aquela que sorri não por cortesia, mas por convite.

Parece pura criação da imaginação, parece meramente uma invenção do cotidiano, mas se for uma ilusão, é uma ilusão com CPF e RG. Para que não fique apenas no campo ideal, darei exemplo de carne e osso de tal mulher.

Você está em São Carlos (cidade do interior de São Paulo)? Conhece a Universidade Federal de São Carlos? Não? OK… fica ao lado da Rodovia Washington Luis, agora sim? Então, vá para a Biblioteca Comunitária e leve um cadeado para guardar suas coisas. Certo, logo na entrada há uma bancada para devolução, verificação e retirada de livros. Bom minha dica se torna desnecessária daqui por diante. Avante meu caro!

Mas há “poréns” e “entretantos”, a mulher simpática sempre é simpática (sempre se refere aos homens) logo, sempre parece que é um flerte. Não é lógico? Sempre que se encontram, sempre aquele belíssimo sorriso de convite. Mas, há um momento de grande tristeza, e você percebe que você não é tão “especial” assim, você não é o “cara”. Você percebe isto, quando outro amigo percebe a mesma coisa que você e este também pensa que tal mulher está dando bola – somente – para ele.

A mulher simpática é simpática com todos, de tal maneira que todos acham que ela está “dando bola”, mas no fundo, ela apenas tá achando graça das reações dos marmanjos, ela apenas quer testar seu poder de sedução. Ela percebe que possui um poder divino, o da onipotência. É meu caro… ela também te controla.

Sanca, 23/10/2010

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Noite de Maio

Noite de Maio – Henrique Y. Takahashi

Noite de Maio. Cidade do ar abafado, cidade da boemia, cidade iluminada pelos bares e pelos carros. Avenida principal é uma das maiores atrações: bela arquitetura, belos prédios, bares badalados, fluxo interminável de carros e pessoas, enfim, paisagem urbana noturna típica.

Muitas pessoas estão se divertindo, se conhecendo, se despedindo. Algumas imperceptivelmente estão roubando, pixando, catando latinhas de alumínio ou pedaços de papelão, uma das atividades produtivas que mais crescem entre moradores de rua.

Carros “tunados” com o som no máximo, pode ser eletrônico, axé ou sertanejo. Carro emprestado do pai com um motorista que pretende simular os jogos de video-game. Carro que pode ser um A3, um Astra ou um Stilo, aquele amarelo com sky window (o nem tanto popular teto-solar).

É em um destes bares que possui um grupo de jovens na qual limitei-me naquela noite. Não são nem crianças, nem adultos. Uma confusão e hibridismo de corpo e mente; ora infantil, ora madura. Estão todos rindo com base na bebida popular brasileira, a cerveja. O suor da bebida escorre com o tempo das conversas, dos mais variados assuntos, papo de bar. As mesas estão na calçada, um punhado delas, muitas pessoas estão no mesmo ritual. A proximidade dos corpos e o relativo ar abafado da cidade contribuem para o suor da cerveja, na qual esquenta com rapidez.

Uma moça de feição esbelta, com o cabelo curto representado pela sua personalidade forte, se levanta da mesa e vai até o banheiro. Na mesa, um sujeito com um tom jocoso diz: “Vai lá cara!”. “Mas…” gagueja o jovem com expressão insegura, motivado também pela sua inexperiência com relações afetivas. O rapaz levanta-se rapidamente da mesa, sem chamar atenção do grupo que continuava a conversa de “alguma história humorística na vida”, entra no bar a procura do banheiro.

Não encontrou a moça, prefere ir no banheiro para “aliviar um pouco a tensão e o ‘joelho’”. Enquanto urinava, além de relaxar, começava se acalmar para os próximos decisivos minutos. Dá a descarga, esbarra com um sujeito e lava as mãos na minúscula pia. Ajeita o cabelo com as mãos, para que tudo esteja em seu devido lugar. Sai alegremente do banheiro quando esbarra com a moça na qual flertava. “Oi…” diz com um sorriso nervoso – “Preciso falar com você”. Com um olhar indiferente a moça segue mudamente o rapaz.

Ao sair do bar e deparar com a avenida cheia de pessoas, ambos sentem um baque do frio. Dentro do bar mantinha o ar abafado, mas fora do estabelecimento já havia esfriado o bastante para se arrepiar. Passaram-se algumas horas, era a mudança rápida no clima comumente do mês de maio. O jovem levou a moça para um local menos barulhento e mais particular, ao lado de um bar de esquina com a avenida. Possuia uma loja de antiguidades na qual estava fechada pelo horário de atendimento, havia um banco feito com tronco de madeira. Ambos sentaram no frio. Uma árvore cobria-os da iluminação do poste, criando um ar de aconchego de intimidade, que ajudou o jovem tímido a balbuciar e esconder seu rosto avermelhado – da vergonha e do frio. Com as mãos dentro do moletom iniciou a conversa, ambos já se “conheciam” durante um certo tempo, mas nunca se aproximaram tanto quanto naquela noite. A moça dizia: “Nunca imaginava a gente…” e assim esboçava um sorriso deixando a frase incompleta, entendendo-se por si própria.

Os amores são simples, surgidas por expressões e não por palavras. Compreende-se tudo, o porquê do olhar vazio, do olhar para o chão, do olhar fixo. Pelo menos poupa as palavras desconexas do jovem envergonhado, palavras que mesmo sem lógica possui compreensão por parte do outro.

Com a situação entre o intimismo e aconchego que a penumbra, a proximidade dos corpos pelo frio e a sós criava, contrastava com a barreira das frases soltas, da vergonha e da infância de contato superficial. Mas estava frio, a fumaça que saia da boca era um sinal da baixa temperatura. Com o frio, naturalmente os corpos se aproximavam para esquentarem, algo do inconsciente. Com a proximidade, todas as feições se tornam mais nítidas, mais detalhadas. Os lábios da moça estavam levemente trêmulas, a cada inspiração seca, soltava o pouco ar quente do corpo. Estavam com frio, se aproximaram demais.

Nenhum aquecedor ou lareira supera o calor do toque entre corpos. A sensação térmica da mão gelada com o outro corpo coberto com uma blusa grossa e os batimentos cardíacos, aquecem rapidamente qualquer corpo. As mãos que tocavam lentamente o corpo, sentia-se o mesmo calor de um banho quente. Os lábios já não tremiam mais, já não havia mais nenhuma barreira entre eles.

Após lentamente recobrarem a consciência, a moça diz: “Parece beijo de adolescente…”. O jovem enrubesce, mais do que o frio produzia. Ambos se levantaram e voltaram para a mesa. Havia dois corpos frios a menos naquela noite e um banco de madeira como testemunha.

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