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A Ilha

A Ilha – Henrique Y. Takahashi

Não me recordo há quanto tempo eu moro aqui. Creio que já faz alguns anos, pois minha barba cresceu, meu cabelo está comprido até a última medula espinhal. Faz tanto tempo que nem lembro como eu cheguei aqui. Perai, lembro sim! Eu cheguei aqui porque sofri um acidente e “que acidente!”. Estava em um barco e a maré tava alta. É verdade, a maré tava cheia à beça.

Mas por que estou aqui mesmo? Por que? Aqui não tem fim, é inacabável. Por que aqui? Estou preso aqui… isso! Acho que fui preso! Será que cometi um crime muito grave? Será que fui um bandido muito perigoso e procurado? Acho que as pessoas temiam-me?! Ah! Isso seria muito bom! Ha, ha! Não conseguiram me deter e me largaram aqui, neste fim de mundo que não acaba.

Isso é uma prisão. Olha esse mar! É como as grades, mas inquebráveis, intateáveis. É o mar de onde vim, de onde começou tudo pelo que eu me lembre. Mar que nunca me respondeu nada, espelho celeste cheia de infinitude. Do que adianta esmurrá-la, se no máximo que posso fazer é ficar ensopado, nem me machucar eu posso para descontar a minha raiva. Inútil até em minha própria dor.

Que desespero, quero sair daqui logo! Mas como? Se nem sei de onde vim? Como vou ir para algum lugar sendo que nem sei quem eu sou ou quem eu fui? Eu acho que preciso parar para pensar um pouco. Mas onde? Onde irei parar para pensar um pouco? Acho que deitarei um pouco, a areia já não está mais tão quente.

Que céu bonito ein? Grande à beça! É um azul semelhante… ao… mar. Esse mar que me prende, preciso de um barco logo pra sair daqui. Nadar acho que seria meio impossível, a água é amarga demais para nadar. Além de eu estar muito magricela, não aguentaria nem vinte minutos na água. Preciso pensar em uma forma de sair daqui. Poderia voar? Olha só aquela garça, eu poderia ser uma agora. Droga! Por que eu não sou uma garça? Assim eu poderia sair daqui sem mais delongas. Já pensou a liberdade de voar bem alto, sem preocupação nenhuma? Apenas comendo peixes fresquinhos. Mas até isso me limita, até este céu me limita. É como uma janela alta e pequena com grossas grades. Consigo ver somente um pouco do que existe lá fora, na verdade só consigo imaginar o que acontece lá fora.

Ah! Até quando? Até quando vou ficar aqui?! Não aguento mais, eu desisto. É simples, eu desisto e pronto, acabou tudo isto. Acabou a forma de como sairia daqui, acabou o porquê de estar aqui, acabou o porquê de quem sou eu! Quer saber de uma coisa? Vou para lá, lá no meio da ilha. Pelo menos eu esqueço um pouco o que fiz e deixei de fazer aqui. O que vim fazer aqui?

Os pés pisam lentamente na areia macia, tão macia quanto a pele de um bebê. A areia já esfriara, assim ao enterrar cada pé na hora de andar, sentira um frio agudo em cada buraco feito pela caminhada. Os pés sofriam um banho de areia, havia um acúmulo de areia entre os dedos rachados e as unhas amarelentas. O ar estava leve, leve e fria. Uma brisa percorria os cabelos imundos e compridos. Não era perceptível, mas a brisa levava um aroma fétido dos cabelos. Parecia mesmo uma aura imunda, que era soprada por um vento frio e solitário. Cada partícula de ar frio entrava pelos poros, pelas narinas. Cortava o corpo com a frieza, até chegarem nos pulmões. Até chegarem as primeiras lufadas da boca, até as tosses ficarem incessantes, até as pernas bambearem, até os joelhos se dobrarem com o peso da gravidade, até o corpo se aquecer submersa na areia, até a boca sentir o gosto terroso, até as narinas não sentir nenhum cheiro, pois já estava ocupada com os grãos acolhedores.

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Noite de Maio

Noite de Maio – Henrique Y. Takahashi

Noite de Maio. Cidade do ar abafado, cidade da boemia, cidade iluminada pelos bares e pelos carros. Avenida principal é uma das maiores atrações: bela arquitetura, belos prédios, bares badalados, fluxo interminável de carros e pessoas, enfim, paisagem urbana noturna típica.

Muitas pessoas estão se divertindo, se conhecendo, se despedindo. Algumas imperceptivelmente estão roubando, pixando, catando latinhas de alumínio ou pedaços de papelão, uma das atividades produtivas que mais crescem entre moradores de rua.

Carros “tunados” com o som no máximo, pode ser eletrônico, axé ou sertanejo. Carro emprestado do pai com um motorista que pretende simular os jogos de video-game. Carro que pode ser um A3, um Astra ou um Stilo, aquele amarelo com sky window (o nem tanto popular teto-solar).

É em um destes bares que possui um grupo de jovens na qual limitei-me naquela noite. Não são nem crianças, nem adultos. Uma confusão e hibridismo de corpo e mente; ora infantil, ora madura. Estão todos rindo com base na bebida popular brasileira, a cerveja. O suor da bebida escorre com o tempo das conversas, dos mais variados assuntos, papo de bar. As mesas estão na calçada, um punhado delas, muitas pessoas estão no mesmo ritual. A proximidade dos corpos e o relativo ar abafado da cidade contribuem para o suor da cerveja, na qual esquenta com rapidez.

Uma moça de feição esbelta, com o cabelo curto representado pela sua personalidade forte, se levanta da mesa e vai até o banheiro. Na mesa, um sujeito com um tom jocoso diz: “Vai lá cara!”. “Mas…” gagueja o jovem com expressão insegura, motivado também pela sua inexperiência com relações afetivas. O rapaz levanta-se rapidamente da mesa, sem chamar atenção do grupo que continuava a conversa de “alguma história humorística na vida”, entra no bar a procura do banheiro.

Não encontrou a moça, prefere ir no banheiro para “aliviar um pouco a tensão e o ‘joelho’”. Enquanto urinava, além de relaxar, começava se acalmar para os próximos decisivos minutos. Dá a descarga, esbarra com um sujeito e lava as mãos na minúscula pia. Ajeita o cabelo com as mãos, para que tudo esteja em seu devido lugar. Sai alegremente do banheiro quando esbarra com a moça na qual flertava. “Oi…” diz com um sorriso nervoso – “Preciso falar com você”. Com um olhar indiferente a moça segue mudamente o rapaz.

Ao sair do bar e deparar com a avenida cheia de pessoas, ambos sentem um baque do frio. Dentro do bar mantinha o ar abafado, mas fora do estabelecimento já havia esfriado o bastante para se arrepiar. Passaram-se algumas horas, era a mudança rápida no clima comumente do mês de maio. O jovem levou a moça para um local menos barulhento e mais particular, ao lado de um bar de esquina com a avenida. Possuia uma loja de antiguidades na qual estava fechada pelo horário de atendimento, havia um banco feito com tronco de madeira. Ambos sentaram no frio. Uma árvore cobria-os da iluminação do poste, criando um ar de aconchego de intimidade, que ajudou o jovem tímido a balbuciar e esconder seu rosto avermelhado – da vergonha e do frio. Com as mãos dentro do moletom iniciou a conversa, ambos já se “conheciam” durante um certo tempo, mas nunca se aproximaram tanto quanto naquela noite. A moça dizia: “Nunca imaginava a gente…” e assim esboçava um sorriso deixando a frase incompleta, entendendo-se por si própria.

Os amores são simples, surgidas por expressões e não por palavras. Compreende-se tudo, o porquê do olhar vazio, do olhar para o chão, do olhar fixo. Pelo menos poupa as palavras desconexas do jovem envergonhado, palavras que mesmo sem lógica possui compreensão por parte do outro.

Com a situação entre o intimismo e aconchego que a penumbra, a proximidade dos corpos pelo frio e a sós criava, contrastava com a barreira das frases soltas, da vergonha e da infância de contato superficial. Mas estava frio, a fumaça que saia da boca era um sinal da baixa temperatura. Com o frio, naturalmente os corpos se aproximavam para esquentarem, algo do inconsciente. Com a proximidade, todas as feições se tornam mais nítidas, mais detalhadas. Os lábios da moça estavam levemente trêmulas, a cada inspiração seca, soltava o pouco ar quente do corpo. Estavam com frio, se aproximaram demais.

Nenhum aquecedor ou lareira supera o calor do toque entre corpos. A sensação térmica da mão gelada com o outro corpo coberto com uma blusa grossa e os batimentos cardíacos, aquecem rapidamente qualquer corpo. As mãos que tocavam lentamente o corpo, sentia-se o mesmo calor de um banho quente. Os lábios já não tremiam mais, já não havia mais nenhuma barreira entre eles.

Após lentamente recobrarem a consciência, a moça diz: “Parece beijo de adolescente…”. O jovem enrubesce, mais do que o frio produzia. Ambos se levantaram e voltaram para a mesa. Havia dois corpos frios a menos naquela noite e um banco de madeira como testemunha.

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Rotina Citadina

Rotina Citadina – Henrique Y. Takahashi

Chuva fina ou como diriam alguns: garoa. O típico céu cinza, da cidade cinzenta, macilenta.E lá estou confortavelmente assistindo a TV, como é de praxe para muita gente no domingo. Domingo do descanso, domingo da família, domingo do casal de namorados, o último dia da semana, amanhã recomeça. Poderíamos dizer que seria uma pré-segunda, ao invés de domingo. Há uma espectativa do dia seguinte, não sei se uma espectativa desejada. Apenas sei que o domingo é um dia em que os ponteiros do relógio enlouquecem ou estagnam.

É um dia confortável, mas no fundo tem um pouco de tensão, tensão do dia seguinte, recomeço da rotina.

Continuo sentado.

Assisto o jogo, aparece bolinhas no canto da tela, gols do São Paulo, muitos.

A cada 5 minutos vejo o relógio para ver ser chegou a hora de ir embora. E como o chrono não falha… Chegou a hora, preciso ir embora e o time do São Paulo continua goleando algum time. O ar está estéril. Me levanto para colocar meu tênis e ir. Há um consenso do silêncio, não há o porquê de quebrá-lo, somente a narração do jogo de futebol que ao fundo se escuta. Um mísero burburinho futebolístico.

Pego as minhas coisas, desço o elevador. O silêncio perdura, agora quem entra em cena é o zumbido do elevador descendo e a luz amarelada dá o tom do ambiente, o chuvisco ininterrupto dá o clima úmido e abafado.

Plim.

Parou de chover? O céu continua de mal humor, está meio parecido com a TPM.

Agora é a caminhada, dobro minhas barras para não molhar. Ando como um malabarista, desviando dos buracos e poças ao caminho, a calçada está mais irregular do que uma trilha na selva. Mas a natureza é mais forte (ou a cidade), piso atrapalhadamente em uma poça de água. Murmuro palavras ilegíveis. Meu pé automaticamente gela, sinto a meia empapada.

Atravesso a rua rapidamente, afinal já estou chegando na Estação. O entardecer já dominou o dia, os postes emitem uma luz bruxelante, parece que a luz não adentra a escuridão; fica ela, estática no ar.

Continuo prestando atenção onde piso, para não me molhar mais. Ao levantar meu rosto vejo duas senhoras (uma é uns 15 anos mais nova que a outra), uma com a camiseta do São Paulo. Estava aos prantos, berrando no meio da rua, muitos cantos de olho de transeuntes. Pensei “não era para ela estar feliz? O São Paulo goleou hoje…”. Em um momento súbito, ela inconscientemente me respondeu “Por que?! Por que aconteceu com ela?! Traga ela de volta! Pelo amor de Deus!!!”. Fiquei mais mudo do que estava. Olhei para o outro lado: Hospital Bandeirantes.

Atravessei a rua como dezenas de pedestres que estavam fazendo o mesmo. Entrei na Estação, amarrei meu cadarço e desci às escadas rolantes. Chego à cabine para comprar um ticket e vejo um gringo fazendo o mesmo. Ele está um pouco atrapalhado e ao comprar sua passagem, solta um “Scusa” (desculpa). Vejo o senhor dentro da cabine de tickets de mau humor, como o céu citadino. Ele me olha com repreensão, esperando algum erro. Dou meu dinheiro rapidamente e pego o ticket.

Escuto o barulho dos trilhos, sopra-me um vento moroso e pesado. A garoa fina prossegue, o céu cinzento também, o meu embarque também, menos o choro da senhora, que não pode aproveitar a vitória de seu time. E amanhã começa um novo dia, uma nova rotina.

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