“Era uma Copa muito engraçada/não tinha técnico/não tinha nada./Ninguém podia entrar nela, não/ porque no estádio não tinha chão./Ninguém podia fazer gol na rede/porque Teixeira era o nome dele./ Ninguém escolhia o jogador/ porque o que mais havia era o temor./ A partir de hoje muitos têm medo/ Até 2014 ao desespero”. Eu sei que não tenho habilidade de modificar essa conhecida e antiga cantiga de infância que todos conhecem, e mais ainda modificar de forma digna um poema de Vinícius de Moraes torna tal modificação algo de grande responsabilidade.
Acabou a Copa do Mundo, meses de um imprensa quase exclusivamente voltada para a Copa, 24 horas de World Cup 2010 – South Africa. Não que eu seja uma daquelas pessoas que são aversas à Copa, que a consideram como o “ópio do povo”, que tudo o que se relaciona ao futebol deveria se extinguir e portanto estaríamos preparados para a fazer a revolução e destruir todas as amarras que o futebol como sistema de alienação massas possui (Ufa!). Pelo contrário, sou apaixonado pelo futebol desde menino, torço para o Coringão desde pivete e cheguei até a jogar – com um pouco de insucesso – na escolinha de futebol do Corinthians que se chama (ou se chamava?) Chute Inicial na cidade de São José do Rio Preto/SP.
Sei que o futebol tem o seus problemas e o seus podres. Sei que o futebol gira em torno dos milhões de dólares, de euros ou de reais. Sei que os cartolas tanto dos clubes quanto das seleções fazem uma publicidade enorme com camisetas, chuteiras dos diversos e mais variados objetos de consumo para extrair o máximo de lucro do responsável de manter o futebol vivo, o torcedor (no caso do Corinthians, alguns milhões de torcedores).
Esta Copa de 2010 nos deu oportunidade para algumas interessantes reflexões: primeira Copa da África, mostrando que são capazes de fazer um dos eventos globais mais vistos no mundo, mesmo tendo que pagar 6,5 bilhões de reais e esconder milhares de sul-africanos em casas de metal sob um muro semelhante ao de Berlim. Vimos também a crise da seleção comandada pelo simpatissíssimo Raymond Domenech, onde houve algumas reações por parte de torcedores franceses, em relação à ascendência africana de muitos jogadores da seleção francesa, relacionando isto com o lamentável desempenho francês. Aprendemos também o que mais importa em um campeonato de futebol é o próprio futebol.
O Dr. Sócrates em uma entrevista a revista Caros Amigos disse que o mais importante é o futebol arte, sendo a vitória algo secundário a este. Em relação a vitória não concordo com ele, mas achei importante quando disse sobre a relação do futebol arte com a violência entre torcedores:
Caros Amigos – Sim, mas por que as pessoas vão no estádio de futebol, e, quando o time perde, saem e chegam às raias de uma assassinar a outra? Se não fosse importante a vitória, se a derrota não tivesse aquele peso significativo…
Sócrates – Não, você está enganada. Me diga um jogo do Santos neste ano que teve briga?
Caros Amigos – Não teve.
Sócrates – Por quê?
Caros Amigos – Porque é futebol arte?
Sócrates – Espetáculo. O nego vai no campo para ver espetáculo. Quando não tem espetáculo, aquilo que é mostrado em campo é transferido como cultura, como informação para dentro da sociedade. Se você se agride lá embaixo, você estimula a agressão lá fora. Quer dizer, é um exemplo para a sociedade. Mas, se você mostra a arte, essa sociedade vive de arte. A diferença é brutal.
Caros Amigos – O importante não é ganhar…
Sócrates – Espetáculo, o futebol é arte. Alguém vai no Louvre para comprar a Monalisa? O que aqueles milhões de pessoas vão fazer lá? Vão vê-la.
De certa forma é uma visão simplista em relação à arte e a violência, mas o que podemos retirar desta visão do Sócrates é o que, segundo Vianna:
o papel da arte e esporte para uma rivalidade entre grupos de maneira pacífica (Vianna, p.39)
Ou seja, neste caso o futebol arte seria a fusão entre o esporte e a arte. Multiplicando ainda mais a importância de ambos.
Até agora analisamos o futebol atual e principalmente da Copa do Mundo de 2010. E mesmo antes de terminar esta, com a eliminação da seleção brasileira, já iniciou os debates sobre a Copa de 2014. Com inúmeros problemas como explicitado pelo secretário geral da FIFA, Jérôme Valcke:
Vamos ter muito trabalho. Temos que construir estádios, estradas, aeroportos. Também precisamos pensar em comunicação, hospedagem… Mas é assim mesmo.
Não é ruim a construção de todos esses itens, mas a conta será alta segundo a previsão de aproximadamente 17 bilhões de reais em estádios, transporte e infraestrutura urbana; além dos 5 bilhões para os aeroportos. Mesmo que seja uma conta especulativa, com certeza o débito será grande – para nós. Mas para os seletos membros da FIFA não importa o que ocorrerá no pós-Copa, o que importa mesmo é que o Brasil faça cara de que tudo está indo bem. É como convidado em festa de aniversário, não paga para entrar, nem pelo que come e pelo que bebe, suja tudo, e não ajuda a lavar a louça e nem a varrer o chão. Entretanto pode ter certeza que o nosso querido Don Corleone tupiniquim – nosso principal anfitrião – fará de tudo para que esta maquiagem de 2014 não borre. Só não sei onde encontrará local para colocar um pouco de milhões de pessoas em casas de ferro.
Muitos estão preocupado com a infraestrutura urbana e com o próximo treinador da seleção brasileira – ou melhor, o segundo cargo mais importante no Brasil – Mano Menezes, Muricy Ramalho, Felipão, Leonardo… Não irei mentir sei que isto é preocupante, mas o que mais me chama a atenção (e é quase um tabu na mídia) é sobre os longos anos da gestão Ricardo Teixeira que já está no cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol há 21 anos.
Faremos assim uma breve historiografia do Brasil no século XX:
Getúlio Vargas (1930-1945), Castelo Branco (1964-1967), Costa e Silva (1967-1969), Médici (1969 – 1974), Geisel (1974-1979) e Figueiredo (1979-1985).
O que eles têm em comum? Sim, possuíram o poder de presidentes e sim, também foram ditadores. Mas somente um ficou mais de 20 anos.
Referências Bibliográficas:
CORREIO CAROS AMIGOS. Associação Atlética Brás Cubas & Macunaíma Futebol Clube selam acordo: Rumo à 2014 por Luiz Ricardo Leitão. link: <http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=correio&idcorr=106>
LANCENET. Para FIFA, Brasil precisa de quase tudo para receber a Copa. link:<http://www.lancenet.com.br/copa-do-mundo/noticias/10-07-12/788938.stm?futebol-para-fifa-brasil-precisa-de-quase-tudo-para-receber-a-copa>
REVISTA CAROS AMIGOS. Entrevista com Dr. Sócrates. Ano XIV, nº 159, junho. São Paulo: Editora Casa Amarela, 2010
VIANNA, Hermano. Galeras Cariocas – território de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997
