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Arte japonesa das sombras

Estava eu lendo um artigo sobre Marcelo Mirisola, um escritor super-crítico que critica tudo e a todos (e na qual estou com vontade de ler), mas não é sobre que quero falar. No artigo que li, Rafael Rodrigues diz que sobre os texos de Mirisola são “textos confusos, quase todos equivocados e que vão ‘do nada a lugar nenhum’” e que são “trechos isolados dentro de textos prestes a desabar, de tão mal estruturados”. Mas Rodrigues diz que somente valeu continuar a leitura porque Mirisola cita o japonês Junichiro Tanizaki.

Há uma outra [crônica] que vale a leitura porque se refere ao escritor japonês Junichiro Tanizaki (grifo meu).

Portanto pesquisei sobre Tanizaki, pois pensei, como será este escritor que foi elogiado por ambos – Rodrigues e Mirisola, um dos poucos consensos obtidos – será? Se foi citado por um escritor tão polêmico e crítico – como diria o ditado “sem papas na língua” – como Mirisola, então este japonês sai do padrão (imaginado) de um japonês.

Ao pesquisar sobre tal escritor comprovei minha pressuposição, na curta biografia de Junichiro Tanizaki diz que foi expulso do Departamento de Literatura da Universidade Imperial por inadinplência. Ao ler isto, vi que era um japonês realmente singular, pois já escutei histórias – que creio ser verdadeiras – de um japonês que tinha vergonha de dizer qual universidade tinha frequentado pois não havia passado direto no vestibular, sendo que se gradou em uma das melhores universidades japonesas. Outras histórias é de estudantes que suicidam por não passarem direto no vestibular (caso de suicídio no Japão são comumente noticiados). Ou seja, o Japão é um país – e uma cultura – onde há uma pressão sobrenatural nas pessoas para a “excelência” (melhores notas, melhores empregos, melhor remunerado, melhores universidades, passar direto no vestibular).

Portanto fui pegar um livro de Tanizaki, pois gostaria de saber como era um livro de uma pessoa que foi expulso de universidade imperial, algo inadimissível para os japoneses.

Ao ler sobre a biografia artística de Tanizaki percebi uma relação com o mesmo tipo de temática de Mirisola:

O autor é conhecido por escrachar a sociedade através de uma linguagem escatológica, recheada de humor e muita ironia.

E Tanizaki:

O universo de Tanizaki é intimista e centrado na sensualidade e no relacionamento físico entre as pessoas, e a infidelidade, fetichismo, tendências sádicas e voyeurismo não coíbem os personagens de realizar seus anseios.

O livro que peguei de Junichiro Tanizaki foi Em louvor da sombra (Editora Companhia das Letras, [1933] 2007, p. 63). Neste livro não se trata da “sensualidade e no relacionamento físico entre as pessoas”, creio que é correto que se trata da sensualidade, mas não das pessoas, mas sim da beleza das sombras, por isso o título Em louvor das sombras.

O autor trata da beleza das sombras, da penumbra na cultura estética dos antigos japoneses. De maneira “elegante” como diz a tradutora do livro Leiko Gotoda, é um livro na qual o autor consegue retratar através da própria escrita e da expressão desta a profundidade do espírito japonês, que reflete em sua produção artística, lembrando dos haicais.

A impressão dada pelo livro é de lamúria – como diz o próprio autor – e de saudosismo. Um resgate da antiga cultura japonesa, antes da influência européia. Uma retomada da verdadeira e autêntica beleza nipônica, se contrapondo com a sobreposição da praticidade e superficialidade dos equipamentos modernos trazidos pelos ocidentais.

A beleza citada neste livro é sobre a manipulação das sombras feita pelos japoneses na antiguidade. Parece ser muito simples dizendo dessa forma, mas a maneira como Tanizaki trata a “arte das sombras” (categoria minha) é tão confortante, belo e singelo.

Singelo porém profundo, como a cultura milenar oriental. Creio que por ser milenar o Oriente conseguiu estabelecer uma profundidade em “pequenas coisas” ou em “coisas simples”. O autor cita por exemplo o toilet japonês:

Construída invariavelmente longe do corpo da casa, à sombra de arbustos e em meio à folhagem e ao musgo de verde fragância, a ela se chega transpondo corredores, quando então, acocorado em meio à baça claridade refletida pelo shoji (painel corrediço, cuja estrutura de madeira leve forma pequenos quadrados vedados por folhas de papel japonês), considero simplesmente indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e me perder em pensamentos. (Tanizaki, [1933] 2007:12).

E sobre a culinária:

Creio que a culinária da maioria dos países foi concebida para se harmonizar com o serviço de mesa e com a tonalidade das paredes. Pois a culinária japonesa, especialmente, perde a metade da apetência quando servida em ambiente e pratos claros. Quando considero por exemplo o avermelhado caldo missô de todas as manhãs, percebo que essa cor foi desenvolvida no escuros aposentos de antigas casas (…). Considere também o shoyu, em especial o do tipo denso que costumeiramente acompanha sashimi, conservas e verduras da região de Kyoto: como esse líquido espesso e brilhante é rico em sombras, como se harmoniza com as trevas! E mesmo as iguarias de cor clara – o caldo de missô claro, o tofu, a massa de peixe kamaboko, o sashimi feito de pescado de carne branca – perdem vida pela ausência de contraste quando apresentados em ambientes claros. (Idem, Ibidem, p. 28-29).

O uso das sombras se dava até mesmo na beleza feminina, pois as mulheres utilizavam quimonos que:

Eram feitos de cores sóbrias porque a roupa era parte das sombras, simplismente um elemento de conexão entre estas e o rosto. (Idem, Ibidem, p. 45)

Os quimonos cobriam quase o corpo inteiro, deixando evidenciar somente o rosto (às vezes somente a boca) e a mão (somente quando tirava das longas mangas do quimono.

O autor diz também que a cor amarelada e o cabelo negro dos japoneses é um sinal no próprio corpo, das sombras. Ele utiliza-se de uma analogia de que o cabelo escuro é como uma mancha de sumi na folha, constratando com a tonalidade da pele.

A importância da sombra é exatamente o seu contraste com o que é “claro”. Por isso que o autor cita a harmonização do tofu com o shoyu, o corpo quase inteiramente coberto do quimono escuro nas mulheres, evidenciando o rosto. Para Tanizaki a excessividade da brancura, comum aos ocidentais “a nós a visão nos incomoda e desagrada”(Idem, Ibidem, p. 49).

O autor considera a beleza citando uma famosa frase de sua autoria:

A beleza inexiste na própria matéria, ela é apenas um jogo de sombras e de claro-escuro surgido entre matérias.

Simplificando esta frase, a beleza não estaria na top model, mas sim no jogo de sombras utilizado na passarela, na maquiagem, na roupa. Mas creio que Tanizaki, não encontraria a “beleza profunda” nas modelos, mas sim algo superficial e simplório.

Quis expor através deste texto um pouco da “arte da beleza” japonesa antiga, mas é claro que ficou muito simples em relação ao que realmente propõe esta arte. Uma impressão forte que me deixou este autor é que a beleza da arte japonesa se dá em uma relação da natureza com o homem, contrário às artes ocidentais que retratam como objeto principal o homem ou a natureza. Creio que seja pela influência religiosa do país, existe um princípio budista chamado esho-funi: inseparabilidade de vida com seu meio ambiente. Já no Ocidente, com a influência cristã de que a natureza é do completo usufruto humano.

Outra contraposição Oriente e Ocidente seria a noção de ausência. No Ocidente as sombras é a ausência de luz e o silêncio é a ausência de som, uma caráter de negação. Inclusive a escuridão é tida como algo negativo no Ocidente.

O que podemos aprender com o Oriente é que há beleza tanto nas sombras como no silêncio, acho que seja por isso que a cultura oriental tenha um caráter meditativo, contemplativo e sereno.

Referências Bibliográficas:

TANIZAKI, J. – Em louvor da sombra – São Paulo: Companhia das Letras, [1933] 2007.

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O que é haicai?

Perguntaram-me se um poema postado na internet era um haicai. Olhei para o poema e a primeira coisa que me veio à cabeça: Não é um haicai.

É bom deixar claro que, não sou nenhum especialista de haicai ou coisa parecida. Toda opinião emitida será dada como alguém que aprecia o haicai, o poema, a literatura. Sei muito pouco a respeito das inúmeras técnicas existentes dentro da literatura para formar uma “obra prima” (sem entrar no debate do que é obra prima). Enfim, opino como um admirador da poesia que, quando instigado por esta singela arte, arrisco rabiscos.

Mas por que o poema da internet não era um haicai?

Porque o haicai “abrasileirado” é considerado como um poemeto de três versos compostos por 17 sílabas (divisão silábica de acordo com a sonoridade). E esta divisão silábica se dá nos versos em 5-7-5, havendo também, de acordo com alguns haicaístas uma métrica (por exemplo: Guilherme de Almeida), na qual há uma rima do primeiro com o terceiro verso e uma rima interna no segundo verso (não me lembro, mas creio que a rima interna é dada pela 4ª sílaba e pela última sílaba).

Exemplo:

 

________________  X

___ O _________________ O

_________________ X

Mas todas estas métricas (que são úteis até certo limite) não foram provindas do Japão, mas sim de traduções de haicais franceses e ingleses. Pois há várias coisas que existem no haicai japonês que não existem nos haicais ocidentais.

O haicai japonês tem uma semântica, que a meu ver, torna seu sentido poético muito profundo. A língua japonesa é uma língua milenar e o que faz mais diferença, nesta profundidade, é sua cultura, milenar, pois várias palavras japonesas são praticamente intraduzíveis em qualquer língua “ocidental”. O significado de uma pequena palavra pode ter um sentido muito profundo, por exemplo: wabi (sentimento de profunda solidão, mistério da solidão) ou sabi (pátina do tempo, mistério da transformação, desolação e beleza da solidão)[i]

Outro ponto importante no haicai japonês é a presença do kigo que se refere à estação do ano. No Japão é muito claro a passagem das estações: verões quentes e radiantes, outonos bronzeados de folhas forradas no chão, invernos frios de àrvores nuas e as famosas cerejeiras rosadas e pomposas; mas a estação do ano referente no haicai é de acordo com as estações da ilha central japonesa, pois tanto no norte (ilha de Hokkaido), como no sul (Okinawa) as estações variam de forma diferente.

Mas para mim o que importa mais no haicai, seria o seu espírito, o “espírito do haicai”. O haicai deve ser feito de maneira concisa, condensada, que expresse em poucas palavras uma imagem de reflexão. Exatamente, uma imagem, é o que deve vir à mente quanto se lê um haicai. A expressão de algo, que cause reflexão, emoção, de maneira intuitiva na forma de uma imagem.

Darei o exemplo de um dos precursores do haicai no Japão, um haicai do mestre Bashô:

  

furuike

kaeru ga tobu

mizu no oto

 

Sua tradução por H. Masuda Goga:

 

velha lagoa

o sapo salta

o som da água

Neste haicai é claro a simplicidade que é feita, além da imagem (e do som também) que vem quando se lê.

Como dito anteriormente, a língua japonesa tem palavras não traduzíveis a outra língua ocidental, por isso, ao traduzir, perde-se muito do conteúdo, significado, sentido, sentimento e emoção do haicai. Darei um exemplo do mesmo haicai exposto anteriormente:

 

Um velho tanque

Uma rã nela mergulha

Ruído nágua

(Tradução de Oldegar Vieira, em O Haikai, 1975).

Alguns tradutores de haicai, para não perder seu conteúdo essencial, traduzem sem se preocupar com a regra métrica, dando o exemplo do mesmo poema, traduzido por Venceslau de Moraes:

 

Um templo, um tanque musgoso

Mudez, apenas cortada

Pelo ruído das rãs

Saltando à água… mais nada

Em poucas palavras espero ter apresentado um tipo de poesia pouquíssimo conhecida, de uma simplicidade imensa e uma capacidade de expressão muito bela.

Referência Bibligráfica:

GOGA, H. M. – O haicai no Brasil – São Paulo: Editora Oriento, 1988.


[i]Estas “traduções” não passam de aproximações que não exprimem toda a singularidade e profundidade dessas palavras, produtos puros, digamos assim, da multimilenar cultura japonesa. (N. do T.)

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Arte noturna sãocarlense.

Miscelânea Noturna – Henrique Y. Takahashi

  

Noite de sexta

indecisão

entre sim

e o não.

  

Noite agradável

não muito frio.

Ao som do sax

tocando no brio.

  

Chego na porta,

vazio,

nem ao menos,

burburinho.

 

Espero

algo

e para minha supresa,

sorriso.

 

Cantada

mal pronunciada

ou uma pessoa

sem alma lavada?

 

A noite continua

como sempre,

desta vez

ao som do samba.

 

Passos precisos

delicados

cheios de gingados

entre namorados.

 

Não é somente

movimento.

É

o momento.

 

Entre dois

entre todos

entre ela

entre ninguém.

 

Acaba a arte

de bailar,

inicia-se outra

a de interpretar.

 

Mudança radical na atmosfera

o ar pesa,

dificulta a respiração,

por causa de única expressão.

 

Como é incrível

a capacidade deles

de fazer-nos

imergir.

 

Indagação

Risada

Indignação

Gargalhada.

 

 Mesmas pessoas

com diferentes

feições,

emoções.

 

Camaleões

da interpretação!

Vossa tela,

expressão.

 

 

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