Uma das minhas principais indagações quando eu entrei no curso de Ciências Sociais e que tinha grandes expectativas de responder era: “porque que existe desigualdade social?”. Conheci e aprendi dentro da faculdade, desde teorias macroestruturais que procurava explicar tudo, até teorias mais no âmbito das relações cotidianas, que procuravam compreender as minúncias desta desigualdade.
Esta é uma indagação que dialoga fortemente com os movimentos sociais – principalmente estudantis – nos dias atuais. Estes movimentos pautam suas reinvidicações sob a ótica da “exploração do capital”, para obter assim uma universidade “democrática” e no limite “socialista”. Para mim é uma pauta política de certa forma anacrônica, pois aqui no Brasil esta pauta era fortemente reinvidicada na década de 80. Enquanto que mundialmente, víamos entre as décadas de 70 e 80 o declínio dos países socialistas, a desintegração da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. Os países socialistas do século XX, também eram exploradoras.
Assim, um conceito muito importante para a compreensão desta desigualdade social seria o poder. É importante dizer a importância do conceito, pois temos assim um “problema” empírico e necessitamos de significações (conceitos) para a compreensão desta. E esta conceitualização seria o foco principal da filosofia:
Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem sua potência e sua competência. (…) Os conceitos não nos esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. Não há céu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados ou antes criados, e não seriam nada sem a assinatura daqueles que os criam. (Deleuze, G; Guatarri, F. p. 13 in: O que é filosofia?)
Entretanto não será minha pretensão “criar” novos conceitos – obviamente – mas sim enfatizo esta noção do conceito para a filosofia, pois são alguns destes que iremos recorrer.
Voltando para o “porquê da desigualdade social”, a explicação/compreensão não se daria portanto por causa da “exploração da relação capital-trabalho” assim como diria os marxistas, mas seria uma causa “supra-capitalista”. Iremos nos basear – inicialmente – da noção “vontade de poder” de Nietzsche, mas deixaremos um pouco de lado. Pois já que meu conhecimento filosófico e nietzschiano é mais do que simplório, entraremos mais na teoria de Max Weber. Mas é preciso dizer a importância deste conceito de Nietzche para toda teoria sobre poder de Weber.
Poder para Weber seria: “a probabilidade de impor a própria vontade dentro de uma relação social, mesmo contra toda a resistência e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade” (Weber, M. p. 43 in Economía y sociedad, grifo meu). Ou seja, é a partir desta “vontade” de impor a própria vontade em uma relação social é que se estabele a dominação e portanto é esta dominação que estabelecerá diferenças sociais numa ordem de “hierarquia”. É assim que boa parcela das teorias da ciências sociais entende o poder, o poder como algo de dominação no sentido de repressão (tanto no sentido “repressão conflituosa”, como “repressão consentida”).
Entretanto, poderíamos entender este poder, não somente como uma relação vertical de dominação entre o que possui “mais” poder com o que possui menos. Mas esmiuçar o sentido de “vontade de poder”, ou seja, o poder neste caso possuiria um sentido mais amplo de “vontade de fazer”, “vontade de ser”, “vontade de possuir”, “vontade de querer”, trazendo os sentidos similares de poder para este conceito.
Sakyamuni ou Siddharta Gautama, fundador do budismo, utiliza a noção de desejo como o conceito-chave para a compreesão do sofrimento/felicidade humana. O desejo é o que caracteriza o ser humano como um humano, é importante esclarecer que o ser humano que não deseja, não é considerado como um não-humano, pois o próprio fato de não desejar já é um desejo. No limite, enquanto a vontade de poder seria “vontade” de dominação, de ganho de status, ganho de bens simbólicos, ganho de legitimidade e etc trabalhada pela ciências sociais, para Sakyamuni esta vontade de poder, ou permitindo uma modificação conceitual, este desejo de poder (poder ser, fazer, possuir, querer, etc) seria o “desejo”/”vontade” de “felicidade” (felicidade no sentido de “poder” ser, fazer, possuir, querer, etc), ultrapassando assim o “sofrimento” (sofrimento no sentido de não “poder” ser, fazer, possuir, querer, etc).
No limite a desigualdade social ocorre pelo simples fato do ser humano que através da “vontade de poder” ou do “desejo” engendra uma relação de diferenciamento, pois a “vontade de poder” ou “desejo” hegêmonico seria o de diferenciamento e dominância a submissão de um/uns ao outro/outros. De maneira “utópica” a ruptura com a desigualdade de cunho repressivo/submissivo ocorreria a partir da mudança valorativa da “vontade de poder”/”desejo”, que para Nietzsche seria através do conceito de transvaloração dos valores que seria uma ruptura de paradigmas atuais de maneira niilista. Este niilismo não é no sentido de uma metodologia filosófica de simples negação de algo, mas uma negação de algo que busque re-significar as dimensões reais do humano. Portanto a chave para uma ruptura com a desigualdade e diferenciação social é a partir de “valores” que re-significa estas dimensões reais do humano.