Fundo: Chopin Nocturne Op. 9 No. 2
Era a segunda vez que o menino voltava aquela casa, já fazia mais de anos que não a retornava. Naquela casa ele teve sua infância. Havia descoberto os melhores lugares para brincar de pique-esconde nos dois andares que possuía. Teve suas primeiras lições de piano, leu o seus primeiros livros, teve a primeira a sua despedida.
A casa havia parado no tempo, mas para ele ainda havia vida nela. Olhou para a cômoda que havia na sala, a cômoda onde havia as fotos da família, ao lados dos dois sofás aveludados que tanto gostava de domir e beber leite quente. Percebeu que os sofás já estavam entregues as traças, ficou triste e saudoso ao mesmo tempo. A tristeza surgiu por ter visto aquela cena, mas aí o sentimento de saudade brotou com as recordações tão vivas na mente, e com a saudade veio um sentimento de felicidade, felicidade que em poucos instantes fora embora e assim a tristeza retornou para o seu local de origem, a realidade.
Subiu as escadas, os degraus rangiam perigosamente. Subiu com medo de quebrá-los, percebia a fragilidade da casa e o aumento de seu peso, antes as escadas eram tão rijas e conseguia subir com uma leveza confiante.
Ao subir as escadas, deu de cara com o corredor que dava para as escadas. O ar estava abafado, tossiu um pouco. Estava um pouco nauseado, não se sabe o motivo, talvez pelo ar ou pelo retorno. Viu a porta do quarto em que durmia, estava entreaberta e parou um instante. Ficou estático. Começou a pensar: “porque?”.
“Porque estou aqui? Pelo desejo de recordar o que tive aqui? Para reviver, ressucitar o passado? Aqui está tão sujo, as traças estão dominando este lugar, porque vim pra cá? Pelo prazer de sentir o desgosto?”
Fitou a porta entreaberta durante algum tempo.
“Me machuca ficar aqui, mas me sinto bem também”.
Olhou mais um pouco para a porta. Virou as costas e desceu as escadas. “Aqui sempre será meu lar, não importa, sujo ou não. Não preciso entrar no quarto, não preciso reviver o passado, o passado está morto na realidade, mas vivo em mim”.
Ao descer as escadas, olhou para o lado e viu a cozinha, olhou para o outro e viu a sala. Seguiu em frente e bateu a porta. Ao olhar para a casa novamente, viu uma placa: “Demolida em 2 semanas para a construção do condomínio Recanto da Saudade”. Fitou o nome da construtora e sorriu.
Ao entrar no carro, abaixou a cabeça e fez uma prece. Ligou o carro e foi embora.
A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar. (Rubem Alves)
